Era 7 de abril de 2006. A chegada de carros estacionando nos arredores da casa, entre sorrisos e presentes, indicava alguma efeméride. Eram os familiares e amigos do Professor Mucio, que iam ao seu encontro para a comemoração dos seus mil meses. Isso mesmo. Díspar das contagens convencionais — exceto as dos recém-nascidos —, Mucio preferia contar a vida em meses; talvez em decorrência da sua vocação e habilidade com os números. “Um Educador pelas circunstâncias”, como bem descreveu Rudinele Vilela, viu os trilhos da vida o levarem a se ver como Professor de Matemática em Cabo Verde, quando ainda da inauguração do colégio na cidade. Marcou uma geração de cabo-verdenses, por seu ensinamento “construtivista” — antes mesmo que este conceito fosse disseminado no país, — e por sua rigidez, com pitadas de ironia. Seu fascínio pelos números, porém, datava de antes, quando os mesmos trilhos da vida lhe apresentaram a profissão de topógrafo e o seu fiel escudeiro — ou melhor, equipamento —: o teodolito.
Costumo dizer que a vida de cada pessoa é única, mas a singularidade da biografia de Mucio sempre me chamou maior atenção. Soma-se às horas em sala de aula e aos longos dias de agrimensura, uma jornada como engraxate na juventude, “pracinha” da Segunda Guerra Mundial e depois produtor de balas artesanais na mocidade, agricultor e, não menos importante, pai na meia-idade. Suas peculiaridades davam ainda mais o caráter sui generis à sua vida: um perfil atlético, que estimulava as práticas lúdicas e esportivas como natação, bola ao mastro, peteca e malha (primo da bocha, mas jogada com discos de metal). Era, também, admirador da botânica, tendo construído o seu próprio orquidário. Um leitor voraz e eclético, mas com predileção aos conteúdos de Fé, Crença e Espiritualidade. Nas horas vagas, um Damista — para desavisados, um jogador praticante de Damas — de primeira linha. Não bastasse tudo isso: contava a vida em meses.
Mucio não desejou nada muito pomposo para a ocasião, apenas a presença das pessoas queridas, afinal seria a celebração do seu milésimo mês de vida. Ao longo do fim de semana, estavam seus filhos e netos, além de breves passagens de sobrinhos e amigos de longa data. Estava presente Linneu, seu irmão caçula, com outras tantas peculiaridades que merecem texto à parte. Seria completo se estivesse Lourdes, sua esposa, mas ela havia falecido há quase uma década.
Não posso dizer que ele me explicou — até porque não o fez —, contudo acredito que havia uma lógica por trás desse marco: uma maneira de propor uma meta viável à vida, afinal, viver 83 anos e 4 meses — que totalizam os 1000 — é minimamente mais alcançável e humano do que viver 100 anos. Não que a ampulheta esteja em nossas mãos, mas podemos contribuir para isso.
Para muitos, era referenciado como “Professor Mucio”. Para mim, era “Avô”. E enquanto ele completava seus 1000, eu tinha os meus 164 meses. No dia anterior à data festiva, fiquei questionando como presenteá-lo ante o abismo entre a maturidade e a imaturidade; entre a vida já vivida e a vida por vir. Queria que fosse útil e ao mesmo tempo simbólico. Então, fui a uma pequena loja da cidade, e vi um belo abajur para cabeceira de cama: a cúpula cônica e a base em cerâmica, pintada com faixas horizontais em tons vermelhos e alaranjados, com pequenas tiras em bege. Trazia a utilidade para eventuais leituras noturnas, ao mesmo tempo que carregava um significado único para mim: às noites, quando ia visitá-lo com meu pai, entre um assunto e outro, ele olhava para mim e dizia: “Lucas… ‘Lucas’ vem de ‘Lucano’ e significa ‘luz, iluminado’”. Bem depois, soube que era uma citação encontrada em um dos livros de sua biblioteca, “Médico de Homens e de Almas – Taylor Caldwell”.
A imaturidade prevaleceu em mim quando, ao invés de solicitar que a vendedora embrulhasse o presente, eu mesmo resolvi fazê-lo. Como pode imaginar, o formato irregular de um abajur fez com que aquilo se parecesse mais um amontoado de papel amassado. Dentro, deixei um pequeno bilhete com a citação de uma mensagem. Com vergonha, deixei o pacote em sua cama, junto aos demais presentes, e saí. A imaturidade prevaleceu outra vez: Não escrevi meu nome, indicando o remetente, nem no bilhete, tampouco no embrulho. Desfecho: Ele chegou em seu quarto e foi abrir seus presentes; ao ver um “amontoado de papel amassado”, jogou no chão para dar espaço na cama e ouviu apenas o quebrar da cerâmica. Ficou desconcertado com a situação e intrigado com a origem do presente.
Passou-se o sábado todo, em que todos os adultos se perguntaram quem havia dado o abajur de presente. Esqueceram de perguntar às crianças, pois estas já sabiam. Na véspera do almoço de domingo, a pergunta chegou até mim. Houve surpresa por parte de muitos quando assumi o desmazelo do embrulho. Mas eternizo em mim o momento do seu discurso de agradecimento, ao dizer que, dentre todos os presentes, o bilhete contido naquele abajur em pedaços era o que mais lhe agradara, pois continha uma verdade, que fazia com que todos estivessem ali, comemorando seus mil meses.
O abajur foi remendado e conseguiu ser útil e simbólico. E assim, aprendi sobre os mil meses e a importância, não apenas da sua chegada, mas da trajetória até lá. Segue, abaixo, a mensagem do bilhete:
“Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha. É porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.” (Charles Chaplin)
Por: Lucas Toledo – Cabo Verde/MG