Empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, comprou sítio de R$ 3 milhões em Juruaia e está ligado a imóveis de R$ 915 mil em Guaxupé, envolvendo servidor do BC investigado por enriquecimento ilícito – movimentações sob escrutínio da PF e STF.
O empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado do dono do Banco Master, aparece no centro de negócios milionários em Juruaia e Guaxupé envolvendo um servidor do Banco Central (BC) alvo de investigação por suspeita de enriquecimento ilícito. As operações chamam atenção pelo volume dos valores, pela forma de pagamento – em alguns casos, em dinheiro vivo – e pelos vínculos entre os envolvidos.
Sítio de café milionário em Juruaia
Em Juruaia, Zettel comprou o Sítio Alto do Mirante, uma propriedade rural de 43,56 hectares, equivalente a cerca de 60 campos de futebol, com plantação de café. O valor declarado da negociação foi de 3 milhões de reais, pagos com uma entrada de 750 mil reais à vista e mais três parcelas anuais de 750 mil reais, com vencimentos em janeiro de 2022, 2023 e 2024.
O imóvel pertencia ao servidor de carreira do Banco Central Paulo Sergio Neves de Souza, ao irmão dele, produtor rural, e à esposa de Paulo, Lavinia Vieira Costa Monteiro, que também figura na escritura por ser casada em regime de comunhão parcial de bens. A transação foi formalizada em cartório e passou a integrar o conjunto de operações imobiliárias analisadas em investigações administrativas e criminais que miram aliados do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Pelo porte da área e pela cultura de café, o negócio coloca o nome de Juruaia no mapa de uma disputa que, até então, parecia restrita aos bastidores de Brasília e do sistema financeiro. A movimentação reforça o interesse de investidores externos em propriedades rurais no Sul de Minas, região já consolidada na produção de café e em expansão de empreendimentos ligados ao agronegócio.
Compras de imóveis em Guaxupé
Em Guaxupé, cidade que também se destaca na cafeicultura e no comércio regional, Paulo Sergio e familiares adquiriram dois terrenos e 66,6% de um prédio residencial, num total de 915 mil reais. As compras ocorreram entre fevereiro de 2021 e setembro de 2023, período em que, segundo investigações da Polícia Federal, o servidor já atuaria como uma espécie de “agente duplo” de Vorcaro dentro do Banco Central.
O primeiro lote, de 392 metros quadrados, foi adquirido por 130 mil reais em fevereiro de 2021, com pagamento à vista por transferência bancária. O segundo terreno, de 444 metros quadrados, foi comprado em setembro de 2022 por 210 mil reais, pagos em dinheiro vivo, o que está registrado na escritura como “moeda corrente e legal da República em espécie”. A terceira operação foi a compra de dois terços de um prédio residencial, com área construída de 202,5 metros quadrados, por 575 mil reais via transferência bancária, em setembro de 2023.
Um dos vendedores desse prédio foi o irmão do servidor, o agricultor Luis Roberto Neves de Souza, que também aparece ligado a Fabiano Zettel. Registros na Receita Federal apontam Luis Roberto como administrador de uma empresa de Zettel no ramo imobiliário, o que aproxima ainda mais as operações em Guaxupé do núcleo empresarial associado ao cunhado do banqueiro.
Ligações com o Banco Master e o Banco Central
As relações entre Paulo Sergio, Zettel e Vorcaro não se limitam ao mercado imobiliário. De acordo com decisões judiciais e relatórios da Polícia Federal, o servidor do Banco Central teria atuado nos bastidores para orientar estrategicamente o Banco Master em processos administrativos junto à autoridade monetária.
Mensagens interceptadas pela PF indicam que Paulo revisava minutas de documentos e comunicações institucionais do Banco Master que seriam encaminhadas ao Banco Central, função considerada incompatível com as atribuições de fiscalização que exercia como servidor público. Em troca, ele teria recebido vantagens indevidas, incluindo benefícios em viagens.
Esses elementos levaram o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a determinar a prisão de Daniel Vorcaro e de Fabiano Zettel no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga a atuação do grupo para influenciar decisões dentro do BC. Paulo Sergio, por sua vez, foi alvo de medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica e restrições de deslocamento e contato com outros investigados.
Suspeita de enriquecimento ilícito
Paralelamente à frente criminal, o Banco Central instaurou uma sindicância patrimonial para apurar se o patrimônio de Paulo Sergio é compatível com sua renda como servidor. A apuração, de caráter administrativo, analisa documentos, movimentações financeiras e aquisições de bens, incluindo as propriedades em Guaxupé e a venda do sítio em Juruaia.
Caso a sindicância identifique indícios de enriquecimento ilícito, o BC pode abrir um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), com eventual aplicação de sanções ao servidor, e comunicar o caso a órgãos como o Ministério Público Federal, Tribunal de Contas da União, Controladoria-Geral da União, Receita Federal, Coaf e Advocacia-Geral da União. Se não houver provas suficientes, o procedimento pode ser arquivado após sucessivas prorrogações do prazo de análise.
Fonte: Portal Metrópoles