O café brasileiro voltou ao centro das grandes discussões econômicas internacionais. Com a entrada em vigor do acordo entre o Mercosul e a União Europeia em maio de 2026, o Brasil passa a viver um novo capítulo na exportação cafeeira, especialmente para os produtores que apostam em qualidade, industrialização e sustentabilidade.
Na prática, o pacto elimina gradualmente tarifas que variavam entre 7,5% e 9% sobre cafés industrializados brasileiros, como o café torrado, moído e o café solúvel. Uma mudança considerada histórica para o setor, já que durante anos o produto processado brasileiro enfrentou dificuldades para competir no mercado europeu por causa da alta carga tarifária.
Para regiões tradicionais como o Sul de Minas, a notícia chega como uma oportunidade estratégica. Em cidades onde o café faz parte da identidade cultural e econômica, o novo cenário pode fortalecer ainda mais pequenos e médios produtores, cooperativas e indústrias que já investem em cafés especiais e rastreabilidade.
O movimento internacional mostra também uma mudança importante no perfil do mercado. A Europa não busca apenas volume. O consumidor europeu quer origem, história, sustentabilidade e identidade regional dentro da xícara. Nesse contexto, ganham força as indicações geográficas brasileiras, como o Cerrado Mineiro, o Caparaó e a região da Mata de Rondônia, territórios reconhecidos pela qualidade e características únicas dos cafés produzidos.
Mas o novo mercado também traz desafios. A União Europeia passou a exigir regras rigorosas de sustentabilidade através da legislação conhecida como EUDR, que obriga exportadores a comprovarem que o café não foi produzido em áreas desmatadas após dezembro de 2020. Isso significa que a palavra rastreabilidade deixou de ser tendência e se tornou exigência comercial.
Para muitos produtores mineiros, especialmente os ligados aos cafés especiais, esse processo já começou há alguns anos. O campo brasileiro vem investindo em tecnologia, preservação ambiental e certificações internacionais. Agora, essas práticas deixam de ser diferencial e passam a abrir portas comerciais.
A expectativa do setor é de crescimento nas exportações e valorização do café com maior valor agregado. O café brasileiro deixa de ser visto apenas como commodity e passa a ocupar espaço como produto premium, carregando terroir, história familiar e identidade regional.
A mudança também deve pressionar a infraestrutura logística do país. Com aumento previsto nas exportações, cresce a necessidade de melhorias nos portos e corredores de transporte, especialmente além do Porto de Santos, principal rota do café brasileiro para o exterior.
A Associação Brasileira da Indústria de Café comemorou o avanço do acordo, destacando que o pacto fortalece a competitividade internacional do setor e abre novas oportunidades para a indústria nacional.
No meio de cifras, acordos internacionais e exigências ambientais, permanece algo que Minas Gerais conhece bem: o café continua sendo feito por mãos de produtores que acordam antes do sol nascer, observam o clima com atenção e transformam tradição em futuro. Agora, mais do que nunca, o aroma do café brasileiro atravessa oceanos carregando também o valor da sustentabilidade e da origem.
(Por: Valéria Vilela)