Aos 76 anos, Antônio Vagner Dias segue em plena atividade e se consolida como o fotógrafo guaxupeano com a mais longa trajetória profissional ainda em exercício. Sua história se confunde com a própria memória da cidade.
Existem profissionais que exercem uma profissão. E existem aqueles que, ao longo da vida, transformam seu trabalho em patrimônio da comunidade. Em Guaxupé, esse é o caso de Antônio Vagner Dias, o conhecido Vaguinho, que completa 60 anos dedicados à fotografia, mantendo-se em atividade aos 76 anos e carregando o título de fotógrafo guaxupeano com a carreira mais longa ainda em exercício.
Mais do que registrar imagens, Vaguinho ajudou a construir a memória afetiva de gerações. Em seis décadas de trabalho, fotografou casamentos, formaturas, aniversários, batizados, bailes, eventos esportivos, solenidades, shows e incontáveis momentos familiares. Poucos profissionais conheceram tão de perto a história de Guaxupé quanto ele.
É difícil encontrar uma família da cidade que não possua ao menos uma fotografia feita por suas lentes.
Uma vida construída em Guaxupé
Nascido em 19 de janeiro de 1950, em Guaxupé, Vaguinho é filho dos saudosos João Dias Filho e Regina Gallo Dias. Cresceu ao lado dos irmãos João Carlos Dias (in memoriam), Regina Célia Dias, Cézar Tadeu Dias, José Rubens Dias e Rosângela Dias.
Em 1º de julho de 1972, casou-se com Sueli Dias, companheira de toda uma vida. Da união nasceram Andréa (in memoriam), Vagner Dias, que também seguiu a profissão de fotógrafo, Ricardo Dias, jornalista, e Elizabeth Cristina Dias, fisioterapeuta e empreendedora.
A família cresceu com os genros, noras, netos e bisnetos, formando uma história que caminha lado a lado com a carreira construída através da fotografia.
O início de uma paixão
A trajetória começou quando tinha apenas 16 anos, ao adquirir sua primeira máquina fotográfica.
Na década de 1960, fotografar exigia conhecimento técnico e muita precisão. Não existiam telas para conferir o resultado imediatamente. Cada clique era definitivo e dependia da correta combinação entre luz, velocidade, abertura do diafragma, distância e sensibilidade do filme.
Os negativos eram revelados inicialmente por José Cardozo e, posteriormente, por Tereza Páscoa, profissionais que marcaram uma época da fotografia em Guaxupé.
Foi também nesse período que milhares de famílias receberam suas primeiras lembranças através dos tradicionais monóculos fotográficos, pequenos visores de plástico que guardavam imagens em filme positivo. Para muitas pessoas, aquele foi o primeiro retrato preservado da infância, do casamento ou de momentos especiais.
Viagens de trem para revelar fotografias
Com o falecimento dos profissionais que realizavam as revelações na cidade, Vaguinho precisou buscar alternativas para manter seu trabalho.
Passou então a viajar regularmente para São Paulo, levando filmes para revelação.
As viagens aconteciam nos trens da antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Embarcava por volta da meia-noite, seguia até a capital paulista, providenciava a revelação e retornava no trem das 18 horas, trazendo as fotografias prontas para entregar aos clientes em Guaxupé.
A rotina foi mantida até a desativação do transporte ferroviário de passageiros no início da década de 1970.
Onde havia uma história, lá estava Vaguinho
Durante muitos anos, percorrendo a cidade sobre suas tradicionais lambretas, Vaguinho esteve presente onde a vida acontecia.
Fotografou festas populares, cerimônias religiosas, casamentos, aniversários, escolas, clubes, empresas, propriedades rurais e eventos sociais de todos os portes.
Seu acervo nunca ficou restrito a um arquivo ou museu. Está distribuído pelas casas dos guaxupeanos, em porta-retratos, álbuns antigos, gavetas e, principalmente, na memória das famílias.
A evolução da fotografia
A carreira de Vaguinho acompanhou praticamente todas as transformações da fotografia brasileira.
Ele trabalhou na época dos filmes preto e branco, participou da chegada da fotografia colorida — sendo um dos pioneiros a oferecer esse serviço em Guaxupé —, acompanhou a popularização das revelações em papel, dos retratos 3×4, das filmagens em VHS e, posteriormente, da fotografia digital.
Na década de 1980 inaugurou seu primeiro estúdio na Rua Padre João José, tornando-se referência para retratos, documentos, ensaios e fotografias familiares.
Na mesma época ampliou sua atuação para as filmagens de eventos e também trouxe para a cidade as primeiras máquinas copiadoras, popularizando o serviço de xerox em Guaxupé.
Posteriormente adquiriu seu imóvel próprio na Travessa João Cruvinel, onde permanece trabalhando até hoje.
Técnica, experiência e sensibilidade
Antes da fotografia digital automatizar boa parte do processo, o fotógrafo precisava dominar completamente sua profissão.
Ao longo da carreira, Vaguinho utilizou equipamentos das marcas Nikon e Olympus, flashes profissionais e sistemas de iluminação que hoje fazem parte da história da fotografia analógica.
Mas seu diferencial nunca esteve apenas na técnica.
Sempre comunicativo, bem-humorado e próximo das pessoas, conquistou a confiança de diferentes gerações. Sua facilidade de relacionamento transformava sessões fotográficas em momentos leves, permitindo registrar expressões espontâneas e naturais.
Essa combinação entre conhecimento técnico e sensibilidade humana fez com que fosse escolhido, durante décadas, para registrar alguns dos momentos mais importantes da vida de milhares de famílias.
Sessenta anos preservando a história de Guaxupé
Poucos profissionais conseguem permanecer relevantes durante tanto tempo.
Vaguinho atravessou mudanças tecnológicas profundas sem perder a essência do seu trabalho. Viu o filme fotográfico dar lugar aos cartões de memória, acompanhou a chegada dos celulares e das redes sociais, mas manteve aquilo que sempre guiou sua profissão: preservar lembranças.
Hoje, aos 76 anos, continua fotografando eventos, famílias e acontecimentos da cidade com a mesma dedicação de quando começou, ainda adolescente.
Seu acervo representa um verdadeiro patrimônio sentimental de Guaxupé. Pelas lentes de Vaguinho passaram crianças que hoje são avós, casais que construíram famílias, estudantes que se formaram, empresários, autoridades, trabalhadores e cidadãos anônimos que ajudaram a escrever a história do município.
Mais do que um fotógrafo, tornou-se um dos grandes guardiões da memória guaxupeana.
Homenagem reconhece contribuição histórica
Como reconhecimento por essa trajetória, Antônio Vagner Dias recebeu, no dia 30 de junho, a Comenda José Ribeiro do Valle, honraria instituída pela Lei Municipal nº 1.729/2006, durante a gestão do então prefeito Abrão Calil Filho.
A comenda é concedida a personalidades que prestaram relevantes serviços à preservação da memória histórica de Guaxupé e integra as comemorações do Dia do Patrimônio Histórico do Município.
A homenagem simboliza o reconhecimento de uma cidade a um profissional que dedicou seis décadas a registrar sua evolução.
Em tempos em que milhões de imagens são produzidas diariamente e rapidamente esquecidas, a trajetória de Vaguinho reafirma o verdadeiro significado da fotografia: preservar histórias, guardar emoções e permitir que uma cidade continue se reconhecendo através de suas lembranças.
Depois de 60 anos de carreira, seu legado permanece vivo — não apenas nas fotografias que produziu, mas na memória coletiva de Guaxupé, que ele ajudou a construir clique após clique.