Lamento JK, mas Brasília tornou-se um desastre

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Com todo respeito aos idealizadores e executores de Brasília, que tornaram a nossa capital federal numa verdadeira obra de arte a céu aberto, ela não se prestou ao que propunha.
Tenho certeza que o presidente Juscelino, o arquiteto Oscar Niemayer e o paisagista Lúcio Costa, se vivos, concordariam comigo.
Para começar, a construção da cidade foi um festival de gastança e de corrupção, como nunca antes visto. Muitos materiais de construção para a obra foram levados por avião, elevando grandemente os custos.
Quando morava em São Paulo, conheci um espanhol rico, dono de uma transportadora, semianalfabeto, que não tinha o menor pejo em confessar que a sua fortuna iniciou-se com a construção de Brasília. A tática que adotava era a seguinte: Transportava areia para a construção num pequeno caminhão. O encarregado do recebimento do material batia um carimbo, confirmando a entrada do produto. O espanhol dava uma circulada pelo canteiro de obras, passava novamente pela recepção e recebia um novo carimbo, feito pelo encarregado devidamente mancomunado com o transportador. E assim por diante. Cada viagem de areia rendia-lhe, pois, outras tantas.
Os custos da nova capital foram exorbitantes. Deste descalabro, houve um processo inflacionário que tem reflexos até nos dias atuais.
Mas, o pior estava por vir. Com a transferência do Rio de Janeiro para a nova capital, os órgãos públicos federais, assim como o parlamento brasileiro, lá se instalaram, gerando um gasto altíssimo para o erário.
Deputados e senadores, já instalados na nova capital, passaram a gozar de inúmeros benefícios, como apartamentos funcionais, passagens aéreas semanais para os seus estados de origem, verbas indenizatórias para as mudanças.
Mas, não existe nada ruim que não possa piorar mais. As nossas autoridades instaladas em Brasília, com todas as mordomias que julgavam ter pelo “castigo” de ter que morar naquela cidade, criaram um círculo fechado, uma espécie de bolha da qual só participariam “os ungidos dos deuses”, aqueles que estariam acima do bem e do mal. A parceria se deu com os mais execráveis objetivos. Tradicionais adversários políticos se uniram às escondidas para sangrar, de uma forma deletéria, o erário.
Brasília está longe. A cobrança que o povo poderia fazer não chega aos ouvidos moucos daqueles que detêm o poder. Estes estão encastelados em mansões e só se movimentam por carros blindados, com vidros escuros. Na porta das casas, há os “leões de chácara”, que impedem a entrada do populacho.
No dizer do juiz norte-americano Louis Brandeis, “A luz do sol é o melhor detergente” falando contra a corrupção e os atos ilícitos.
O Estado do Rio de Janeiro, cujo governo não é nenhum primor de honestidade, muito pelo contrário, se abrigasse as nossas autoridades federais, as falcatruas seriam de menor escala e de menor monta.
Eu me pergunto se seria concebível, nos dias de hoje, que deputados e senadores caminhassem nas areias da praia de Copacabana? Acho que seriam apedrejados pelos cariocas, ou no mínimo vaiados.
Será que seria possível que suas excelências fizessem na praia uma partida de Frescobol? Acho que não. E isso é lamentável.
O chargista e humorista Milor Fernandes se vangloriava de ter criado o frescobol, que é aquele jogo que você tem que torcer pelo adversário, pois se a bolinha cair, acaba o jogo e a diversão. É o jogo do ganha-ganha. Transpondo para a realidade brasiliense: Você não me denuncia e eu não te denuncio. Trata-se do efeito “orloff” ao contrário: “fico quieto porque amanhã pode ser eu.” Mas, e o povo? Ora, o povo é só um detalhe.
Na Suécia, o Rei Gustavo passeia livremente de bicicleta pelas ruas de Estocolmo. Os parlamentares e outras altas autoridades vão para as suas repartições de metrô. Seus filhos estão matriculados em escolas públicas, suas famílias utilizam o sistema público de saúde.
Já tendo militado na política, devo dizer que o melhor da política é este “banho de povo”. No contato do dia-a-dia, você ouve as reivindicações, escuta as lamúrias, conversa, propõe soluções, ouve sugestões. Tenho para mim, que estes que estão lá e não tem este contato direto com o povo, não podem ser pessoas felizes, apesar de toda a mordomia que o dinheiro do povo lhes concede. Eu me pergunto: e as consciências como é que ficam? Tantos sofrimentos, tanta miséria, e eu me locupletando do dinheiro público.
Os nossos homens públicos, com penduricalhos ou não, ganham suficientemente bem para custear as suas próprias farras, seus uísques, seus jatos. Então, por que ficar recebendo benesses de um banqueiro inescrupuloso? Como não existe almoço grátis, jogam na lata de lixo as suas biografias.
Este estado de coisas tem levado o povo, com justa razão, a desacreditar da política e dos políticos. Acham que todos são “farinha do mesmo saco” e isto não é verdade e é muito perigoso porque é terreno fértil para aventureiros e “salvadores da pátria.”

(PROF. NILSON BORTOLOTI – MUZAMBINHO/MG)

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