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IMPRIMIR
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Creio que o gérmen da política já estava entranhado em mim desde os meus mais tenros anos.

No golpe militar de 1964, tinha pouco mais de dezessete anos. A televisão por aqui, em Muzambinho, estava em seus primórdios. O meio de comunicação que nos alcançava era o rádio, sobretudo a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que tinha uma grande penetração na cidade e que nos fez, naquele tempo, torcedores dos clubes cariocas. Muito diferente do que é hoje em que os cidadãos locais torcem mais pelos clubes paulistas.
O primeiro passo dos militares foi tomar de assalto as emissoras de rádio e tratar de difundir mensagens de apoio ao novo regime. Trata-se de estratégia bastante conhecida, que tem o propósito de catequizar o povo, buscando o necessário respaldo político. Finalmente, os políticos corruptos seriam levados para a cadeia, os comunistas comedores de criancinhas seriam varridos do mapa, a paz e a ordem seriam estabelecidas.
O Hino Nacional fazia-se ouvir o tempo todo. E nós, em santa ingenuidade, sem saber da missa a metade, numa atitude cívica, reverenciávamos os “salvadores da pátria.”
A minha geração, mal informada, provinciana, sem acesso a qualquer projeto cultural ou educacional de envergadura (só havia a biblioteca do colégio, com alguns poucos livros de aventuras), viu-se a mercê de uma propaganda maciça em prol do novo “stablisment”. Fomos ludibriados, como milhões de outros, país afora, também o foram. Ficávamos arrepiados, quando tínhamos notícias de movimentos como “A marcha da família com Deus, pela liberdade”, em que milhares de mulheres saiam às ruas de São Paulo, batendo nas panelas, como demonstração de que a economia ia mal e que urgia mudar o sistema. Assim, o novo “status quo” conseguiu o que esperava: a aceitação popular. É bom que se diga, que isto se deu também, em grande parte, em razão da fraqueza do governo João Goulart.
Desconhecíamos o cerne da questão, que a mim só se descortinou, anos mais tarde, quando já tinha me mudado para São Paulo, de maneira um tanto trágica.
Nos anos de 1960, meu primo Carlúcio Durante, apelidado de Lútio, trabalhou alguns anos na Souza Cruz. Sofria de algum transtorno mental(parece-me que era esquizofrenia). Fumava cinco maços de cigarros por dia. A doença levou-o a se aposentar precocemente. Não tendo o que fazer, passava boa parte do dia num boteco perto de sua casa, em Santo André(SP), presenciando o jogo de sinuca.
Num dado dia, a polícia política, fortemente armada, passou naquele estabelecimento em que meu primo se encontrava e mandou que todos os presentes ficassem de pé, com a cara de encontro à parede, com as mãos levantadas e as pernas abertas para a revista, devendo, ainda, exibir os documentos. Este era o procedimento policial padrão que vimos inúmeras vezes.
Meu primo não portava os documentos. Morava nas imediações. Não houve choro, nem vela. Levaram-no num camburão. Ficou três dias sumido. A família, sem a menor noção do ocorrido, procurou-o em vão na vizinhança, nos hospitais, até no IML.
Três dias depois, Lútio apareceu ferido. Havia sido preso e torturado.
Pouco tempo depois, em decorrência principalmente do medo e da humilhação que sofrera, veio a falecer.
Estes eram os tempos. Ficamos alijados da participação política. Quando algum amigo, num grupo, fazia algum comentário de ordem política, todos ficavam preocupados, olhando no derredor para ver se não havia alguém que poderia denunciá-lo e aos outros. Os dedos-duros existiam em grande monta. Não podíamos andar em grupos porque isto poderia levantar suspeitas. A vigilância era constante e permanente. Impunha-se não se manifestar para que houvesse um pouco de segurança.
Muitas famílias relatavam e choravam os seus desaparecidos. Uns tantos exilaram-se para o exterior porque sabiam o destino que lhes seria reservado: a prisão e a tortura.
Os órgãos de comunicação eram censurados. Muitas vezes, vi receitas de bolo ou poema de Camões no lugar de editais de jornais. Mais tarde vim a saber que este material entrava no lugar de artigos censurados pelo regime.
Em Muzambinho, já nos anos 1970, num muro de um terreno, onde hoje se situa o Banco do Brasil, apareceu uma pichação que dizia: “Abaixo a ditadura”. Isto foi o suficiente para que a polícia política de Belo Horizonte mobilizasse três ou quatro viaturas para cá. Durante dias a fio, os veículos passavam pelos principais logradouros da cidade, com as sirenes ligadas. A intenção era o da intimidação. Numa pacata cidade com cerca de 15 mil habitantes, isto causou grande rebuliço no seio da comunidade.
Os agentes da repressão não podiam voltar de mãos abanando. Prenderam como “cristos” quatro jovens. Estes foram presos e torturados.
Um dos detidos me contou, anos depois, que um dos soldados da polícia local tentou convencê-lo a denunciar um dos munícipes, que nada tinha a ver com o imbróglio. Tratava-se de um desafeto do militar, que ele queria punir utilizando o método escuso da delação caluniosa. Mas o jovem, honra lhe seja feita, não o fez.
Fico estupefato quando vejo tantos defendendo o retorno dos militares à política, com a instituição de novo regime de exceção, mesmo pessoas que viveram nestes anos de “chumbo”.
O bem mais supremo do homem, segundo penso, é a liberdade. Abomino, pois, o autoritarismo e a ditadura, seja de direita ou de esquerda.

(Prof. NILSON BORTOLOTI – Muzambinho/MG)

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