A barbárie voltou ao interior

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Quando a dor do outro vira motivo de brincadeira, o silêncio de quem assiste também machuca.

 

Quando a humanidade ainda vivia nas cavernas, a sobrevivência era regida, muitas vezes, pela lei do mais forte. Com o desenvolvimento das civilizações, aprendemos — ou deveríamos ter aprendido — que viver em sociedade significa também cuidar uns dos outros, proteger os mais vulneráveis e estender a mão àqueles que não dispõem das mesmas condições para enfrentar as dificuldades da vida.

Mas, diante de determinadas cenas, é inevitável perguntar: em que momento falhamos como seres humanos?

Quando alguém é transformado em objeto de brincadeira, escárnio e zombaria, onde está a nossa humanidade? Quando usamos a dor e as fragilidades do outro para nos divertir, escondendo-nos atrás da burocracia ou de justificativas convenientes para lavar as mãos e nos omitir, alguma coisa essencial se perdeu.

Em um município pequeno como Muzambinho, onde as pessoas se encontram nas esquinas, nas praças e nos caminhos da vida, é difícil acreditar nas cenas que presenciamos em nossas ruas no último sábado. Em uma cidade onde tantos se conhecem, onde as relações ainda guardam traços de proximidade e familiaridade, como chegamos a esse ponto?

Bastaria que uma única pessoa naquele ambiente tivesse um olhar capaz de reconhecer a dor alheia. Um olhar que nos aproximasse dos ensinamentos de Jesus Cristo, Gandhi ou Buda. E, trazendo essa reflexão para a nossa própria história, lembro-me de dona Josefina, que acolhia as pessoas com afeto, abraços e caldos quentes. Gestos simples, mas que nos recordam o verdadeiro significado da humanidade: ninguém deveria ser tratado como se não tivesse valor.

Em que momento alguém passou a acreditar que a dor do outro pode ser usada para divertir uma plateia? E, diante de uma situação assim, ainda ouvimos a justificativa: “Ele quis”.

Seria essa uma explicação aceitável para qualquer atitude? Oferecer um cigarro ou uma bebida alcoólica a uma criança e justificar dizendo “ela gosta” tornaria isso correto? Desde quando a vontade, o consentimento ou a fragilidade de alguém autorizam os outros a ultrapassar os limites do respeito e da dignidade?

O certo continua sendo certo. O errado continua sendo errado. Não podemos relativizar princípios básicos de convivência apenas porque determinada situação se tornou conveniente, engraçada ou confortável para quem assiste.

Diante do que ocorreu no último sábado, precisamos olhar para nossas próprias responsabilidades: as de quem organizou, de quem participou, de quem presenciou e não interveio e, também, de quem insiste em negar ou minimizar os fatos sem se dispor a compreender o que aconteceu. É muito fácil olhar para o lado e dizer que não temos nada a ver com isso. Mas temos, sim. A indiferença também produz consequências.

Ao longo de 30 anos de jornalismo, escolhi dedicar boa parte da minha trajetória ao café. No meio profissional, sou conhecida como Valéria do Café. Falo de produtores, cooperativas, mercados, safras e das histórias de pessoas que encontram na cafeicultura o sustento de suas famílias e a esperança de dias melhores.

Sempre tive orgulho de Muzambinho. Um lugarzinho no meio do caminho, cercado por montanhas, onde a vida pacata e as relações de vizinhança nos fazem acreditar que o tempo passa mais devagar. Mas o tempo passou. E hoje me assusta perceber que a dor do outro parece, para alguns, ter deixado de incomodar.

São tantas igrejas, tantas escolas, tantos discursos sobre valores, respeito e solidariedade. E, ainda assim, somos confrontados com cenas de barbárie. Onde falhamos? Em que momento nossas palavras deixaram de se transformar em atitudes?

Tenho uma pergunta para a qual não encontro resposta: qual é o tamanho da dor de uma família que se vê exposta, humilhada e ferida diante de outras pessoas?

E se fosse seu filho? Seu marido? Seu pai? Seu irmão? Sua mãe?

É possível assistir ao sofrimento de alguém sem sentir ao menos o desejo de acolher, ouvir, ajudar ou oferecer proteção? Não é preciso conhecer uma família para reconhecer sua dignidade. Não é necessário concordar com alguém para compreender que essa pessoa merece respeito.

Não consigo aceitar com naturalidade o que aconteceu, tampouco a nossa apatia, a nossa omissão e o nosso silêncio. Porque o silêncio, quando a dignidade humana está em jogo, também pode se tornar parte da agressão.

Precisamos voltar ao princípio desta reflexão. Será que a rejeição, a intolerância e a falta de amor, que tantas vezes alimentam a vontade de agredir e humilhar, precisam continuar encontrando espaço entre nós?

De que adiantam a presença das instituições, os ensinamentos de padres e pastores, as orientações das escolas e os discursos das autoridades se, diante de uma situação concreta, faltam atitudes? Valores não podem permanecer restritos aos púlpitos, às salas de aula ou às páginas dos livros. Precisam aparecer nas nossas escolhas cotidianas, sobretudo quando alguém está vulnerável e precisa de ajuda.

O que aconteceu nos obriga a uma reflexão coletiva. Não se trata de condenar uma cidade inteira, mas de reconhecer que uma comunidade também precisa ter coragem de rever suas atitudes, enfrentar seus erros e impedir que episódios assim sejam tratados como algo normal. O constrangimento que sentimos deve servir para despertar consciência, responsabilidade e mudança.

No mundo do café, aprendi que, em meio às tempestades, muitas vezes o melhor que podemos fazer é sentar com alguém e dividir uma xícara quente. Ouvir. Acolher. Permitir que a pessoa encontre, naquele gesto simples, algum alívio para a dor e um pouco de tranquilidade para o coração.

Mas quem está disposto a caminhar em direção à dor do outro? Quem aceita interromper a própria rotina para ouvir, ajudar e acolher? Muitas vezes, parece mais fácil virar as costas, seguir em frente e deixar tudo para lá.

No entanto, há uma pergunta que não podemos abandonar: onde está o nosso coração? Porque onde está o nosso coração, ali está o nosso tesouro.

Que tesouro estamos construindo quando a humilhação alheia se transforma em entretenimento? Que valores estamos transmitindo às nossas crianças quando ensinamos, pelo exemplo, que é possível rir de quem sofre? E que cidade queremos deixar para as próximas gerações se não formos capazes de reconhecer a humanidade que existe em cada pessoa?

Este é apenas um artigo no jornal semanal. Mas, depois de três décadas de jornalismo, ainda insisto em não desistir das lutas que escolhi enfrentar. A dor do outro ainda me comove, me machuca, me incomoda. Ainda me tira o sono. Ainda dói em mim.

Talvez seja justamente isso que não podemos perder: a capacidade de nos indignar diante da injustiça, de nos comover diante do sofrimento e de agir quando alguém precisa de ajuda.

Não quero acreditar que a barbárie tenha vencido. Quero acreditar que Muzambinho ainda é capaz de reencontrar o caminho do acolhimento, da solidariedade e do respeito. Mas isso não acontecerá apenas com palavras. Depende de cada um de nós.

Deus, não me deixe fracassar!

Por Valéria Vilela – Muzambinho/MG

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