Muzambinho, 23 de maio de 2024

A CORDA ESTICADA NOS LIMITES

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O Presidente da República, Jair Bolsonaro, no uso da sua verborragia e estilo belicosos, vinha, nos últimos tempos, usando a expressão “esticando a corda” para referir-se aos desafios dos seus supostos adversários. Disso, passamos a deduzir que ele exerce seu mandato presidencial imaginando-se estar dentro de um verdadeiro cabo de guerra.

O cabo de guerra, que já foi esporte olímpico entre 1900 e 1920, segundo os diversos dicionários existentes na internet, é um jogo de corda em que cabos são demarcados de modo que um fique no nível de uma linha central, enquanto outros dois ficam quatro metros, à direita e à esquerda, onde se alinham os competidores, que são oito por equipe. Os times podem ser compostos somente por homens ou mulheres, ou ainda mistos, ganhando a disputa o grupo que puxar os adversários para a linha central. Não deixa de ser interessante saber que existe uma federação que regula esse esporte, fundada em 1960, a Federação Internacional de Cabo de Guerra (em inglês, Tug of War International Federation), que organiza campeonatos mundiais de dois em dois anos, divididos em categorias em que se conta a peso total dos componentes de cada grupo. Este esporte ainda faz parte dos Jogos Mundiais, disputados a cada quatro anos, sob o patrocínio do COI – Comitê Olímpico Internacional, os quais têm sido uma espécie de laboratório dos esportes a serem incluídos nos Jogos Olímpicos, como foi o caso do “Surf” e do Karatê, que ganharam lugar nas recém-findadas Olimpíadas de Tokyo.
Disso deduzimos que Jair Bolsonaro leva seu mandato presidencial como se estivesse em plena prática desse esporte primitivo, pois, as questões cruciais e relevantes do Brasil como o desemprego, o zelo pelo controle inflacionário, as questões ambientais e a inesperada e surpreendente pandemia do Novo Corona Vírus parecem não lhe preocupar. Sempre que pressionado usa de palavreado incompatível com a dignidade do seu cargo, transferindo responsabilidades para assessores ou grupos a ele oponentes. O que vale mesmo para o Presidente, realmente o que lhe apraz, é viver de polêmicas, utilizando-se de jogos de palavras ou de metáforas que inflamam e elevam o moral “das suas tropas”.
No final da semana passada, 6ª feira, 27, na sua costumeira conversa com apoiadores, nas suas saídas do Palácio do Planalto, assim se expressou Jair Bolsonaro: “Tem todo mundo que comprar fuzil, pô! Povo armado jamais será escravizado. Tem o idiota que diz ‘ah, tem que comprar feijão’. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar”. Percebamos tamanha idiotice de quem falou, não daquele que prefere comprar feijão. Porquanto nada a ver feijão com fuzil. Quem tem dinheiro para comprar “fuzis’, melhor dizendo armas, se fortalece no poder bélico disfarçados de CACs – caçadores, atiradores e colecionadores – como gosta de a eles se referir o Presidente. Pouco se preocupam em comer feijão, porque comem dos melhores cortes de carnes, muitas vezes das próprias caças. Em verdade são potenciais milícias armadas nos propósitos do Presidente. Quem prefere o feijão, sabe que dele necessita para o fortalecimento do seu organismo, talvez não passem de buchas de canhão dos CACs. Frases como essa, incitando a população a se armar, e exemplos frequentes de como o Presidente Bolsonaro tem reagido ao esticamento da corda, situação esta vista por ele nas decisões tomadas no âmbito de outros poderes da República, que lhe desagradam, são fartamente reproduzidas e deturpadas em redes sociais.
Então, não é à toa que mais uma vez seus seguidores, suas milícias digitais e, provavelmente, os financiadores de tudo isso, se agitam e se mobilizam para mais uma manifestação de apoio ao Presidente da República na próxima 3ª feira, feriado nacional do Dia da Independência. Não se sabe a troco de que, tem vindo a adesão de segmentos das polícias militares em alguns Estados brasileiros, porquanto as PMs estão sob subordinação estadual ao contrário do que veio acontecer na Ditadura Militar, depois da consolidação do Regime, que baixou ato autoritário condicionando que em todo o País as PMs fossem comandadas por oficiais do Exército. Era uma cabal e insofismável maneira do Governo de Exceção controlar um contingente armado, livrando-se da possibilidade de rebeldia de algum Governador. Hoje, não, pois, cabe aos governadores estaduais a nomeação dos comandantes das PMs. Mais do que isso, cabe a eles até passar por cima do Comandante Geral, como foi o recente caso em que o Governador paulista, João Dória (PSDB), substituiu o comandante do policiamento do interior do seu Estado, Coronel Aleksander Lacerda, que comandava 7 Batalhões e cerca de 5 mil homens, na região de Sorocaba. O fato teve repercussão depois de que o jornal O Estado de S.Paulo revelou postagens do mesmo em redes sociais, convidando os colegas a participarem dos atos de rua no feriado de 7 de Setembro, além de ofensas ao Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), chamado de “covarde”, a Rodrigo Maia (DEM/RJ), o “mafioso”, e ao próprio Governador Dória “uma cepa indiana”. O Cel. Aleksander além de colocado em um órgão sem função alguma, denominado “Nasa”, responde a processo militar e foi denunciado pelo próprio Ministério Público do Estado de São Paulo.
Uma sensação de inquietude existe nestes últimos tempos pela vocação ditatorial e ameaças abertas ao Estado Democrático feitas pelo próprio Bolsonaro, aplaudidas pelos seus apoiadores em todos os níveis. De modo divergente, no meio militar não é lá consensual que ele tenha apoio incondicional das Forças Armadas haja vista reiterados pronunciamentos de altos oficiais afirmando serem elas “instituições de Estado e não a serviço de governos passageiros”. No meio político não são apenas partidos de esquerda que denunciam essas intenções golpistas para perpetuação no poder do Presidente Bolsonaro. Isto se vê nas sessões do Senado e da Câmara Federal, por parte de partidos centristas e da Direita civilizada, através das suas próprias TVs. O arquivamento de inusitado pedido de “impeachment” feito por Bolsonaro junto ao Senado Federal, determinado pelo Presidente Rodrigo Pacheco (DEM/MG), causou frustrações no Governo. Outro fato que esquentou esse ambiente foi a derrota de proposta de Voto Impresso, na Câmara dos Deputados. Palanque muito apreciado pela Grande Imprensa opositora é focalizado na CPI da COVID, cujas reuniões são transmitidas horas a fio pelos canais fechados da Globo News e pela CNN Brasil, onde contundentes críticas ao Governo são disparadas por senadores centristas da CPI da COVID, tais como Omar Aziz (PSD/AM), Renan Calheiros (MDB/AL), Otto Alencar (PSD/BA), Delegado Alessandro Vieira (Cidadania/SE), Simone Tebet (MDB/MS) e outros. Porém, o que tem causado maior irritação no bolsonarismo são as decisões implacáveis do STF – Supremo Tribunal Federal – principalmente as prisões de personalidades por ameaça à Democracia e a alguns dos seus ministros, como o Deputado Federal do PSL/RJ, Daniel Silveira, e o ex-deputado e advogado, Roberto Jeferson, Presidente Nacional do PTB, partido da base de apoio governista, verdadeiro bandoleiro armado em suas postagens nas redes sociais.
Pela leitura do nosso texto, vê-se que o Governo Bolsonaro está bastante desidratado nos apoios que deveria ter. Mesmo entre os evangélicos, que o veneram como um enviado de Deus, há hoje vozes dissidentes, porque perceberam que é inaceitável a apologia de armas da morte, enquanto pessoas estão desempregadas aos milhões e passando fome. O “aparelhamento” do Governo por elementos das forças de segurança, muito mais por militares da reserva, calculados em mais de 6.000 cargos, repetindo o tão criticado “aparelhamento” anterior pelos PeTistas, pode não ser um escudo protetor confiável. Deteriorando ainda mais o esperado apoio, nesta 2ª feira, 30, o respeitável jornal “Estadão” deu a seguinte notícia: “Em manifesto, entidades do Agronegócio defendem o Estado Democrático de Direito”. Na matéria, os ruralistas arrematam que “é o mesmo que nos assegura essa liberdade empreendedora essencial numa economia capitalista”. O documento é assinado por entidades representativas como a ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio); ABIOVE (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais); ABISOLO (Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal); ABRAPALMA (Associação Brasileira dos Produtores de Óleo de Palma); IBÁ (Indústria Brasileira de Árvores); CROPLIFE BRASIL (Representante de empresas de defensivos químicos, biológicos, mudas, sementes e biotecnologia); e SINDVEG (Sindicato Nacional de Produtos da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal). A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) cogita de soltar um manifesto pela democracia sem ataques ao Governo, pois, a FEBRABAN (Federação Brasileira de Bancos), que estaria no mesmo manifesto do Agronegócio e FIESP, teria sido ameaçada pelo Governo na retirada do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal do seu rol de associados caso eles assinasse o manifesto inicialmente proposto e com críticas ao Governo. No começo do mês de agosto, o Estadão Podcasts divulgou manifesto assinado por centenas de empresários, economistas, diplomatas e representantes da sociedade civil destacando que “o princípio-chave de uma democracia saudável é a realização de eleições e a aceitação de seus resultados por todos os envolvidos”.
Não somente a inquietude se apossa de nós, mas uma verdadeira tensão político-social-espiritual. Se acima demos exemplos de manifestações pela Democracia, no lado reverso da crise tivemos a oportunidade de ver e escutar um vídeo de 6’, gravado semana passada durante um culto evangélico na Catedral da Trindade do Recife-PE, da Igreja Episcopal Carismática, onde o Arcebispo e Primaz Dom Paulo Garcia, devidamente paramentado à semelhança de padres católicos, evocando seus 47 anos de pastor, com voz mansa, pausada e grave faz um desabafo, enquanto diz não poder ser omisso diante da “escalada de autoritarismo nunca vista na história do nosso País, por parte de um certo Tribunal composto de pessoas que não foram eleitas para nos governar, que nos sujeita à prisão e nos deixa impedidos de emitir nossas opiniões”. Pondera no seu monólogo: “Bispo, o Senhor não deveria falar assim, porque na Igreja há quem pensa diferente”. Daí, ele eleva a voz e questiona: “Diferente de que? Nós, cristãos, não somos a favor do aborto, da sexualização de crianças, da corrupção, da roubalheira e da ideologia de gênero”. Me horrorizei diante da pregação do pastor, porque parecia uma repetição de pensamentos e discursos já praticados num Brasil recente, que redundaram no Golpe Parlamentar-Judicial da Presidente Dilma Rousseff e na prisão do ex-Presidente Lula, estando, agora, as metralhadoras da fé e da política voltadas contra um dos pilares da Democracia, o Judiciário, encarnado pelo seu órgão supremo, o STF.
Dá mais do que para se perceber, mas, para sentir que a corda está tensionada, estirada. Deve estar no final deste cabo de guerra. Pode estar prestes a arrastar um dos lados contendores para o meio. Mas, também, pode se arrebentar e machucar muita gente. Há especulações que o Sete de Setembro pode ser um dia decisivo.

Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG
(1995/98; 1999/2003) *[email protected]*

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