“O medo agora tem cor, a cor do céu que escurece rápido demais.”
(Antonio, desabrigado da área atingida em JF).
A Zona da Mata mineira, com Juiz de Fora e Ubá no epicentro, foi lançada inclementemente na rota funesta das mudanças climáticas extremas. O Brasil inteiro, como sempre ocorre nessas indesejáveis circunstâncias, comoveu-se com a tragédia, desdobrada em perdas de vidas preciosas e enorme destruição de bens públicos e privados, solidarizando-se, com provas de carinho e ajuda, com as famílias atingidas em cheio pelas enchentes e desabamentos.
O registro, já a esta altura rotineiro, chamemos assim, desses bruscos e devastadores eventos meteorológicos fatídicos vêm encurtando, a cada dia um pouco mais, o espaço e o tempo utilizados pelos negacionistas empenhados em propagar interpretações fantasiosas e tresloucadas do fenômeno climático. As mudanças, segundo eles, respondem a ciclos naturais periódicos, “desde que o mundo é mundo”. Nada têm a ver, acrescentam ruidosamente, com “efeito estufa”, desmatamentos, poluição de rios, mares e florestas. Tais alegações não passariam de “invenções de moda alarmistas”, criadas por cientistas a serviço de grupos ideológicos interessados numa nova ordem mundial. O “novo normal”, das falas ambientalistas virou sinônimo de tragédia, mas para o negacionismo militante isso não faz o menor sentido.
Descartadas, naturalmente, por delirantes, as “teorias conspiratórias” que rodeiam o assunto, a realidade hoje confrontada pela sociedade humana no tocante à magna questão introduz, no radar das preocupações globais, justificados temores. Nada indica que, daqui a pouco, não estejamos, de novo, noticiando, dentro ou fora do país, com muita consternação, tragédias assemelhadas às vividas recentemente no Rio Grande do Sul, na Califórnia e na Zona da Mata.
A temperatura dos oceanos está aumentando. O derretimento de blocos compactos de gelo nos extremos glaciais tem concorrido para a elevação dos níveis do mar. Todos os ecossistemas acusam anomalias ocasionadas pelo alardeado aquecimento global.
Faz-se essencial o entendimento de que o tema “aquecimento global” projete-se com maior vigor, bem além das discussões acadêmicas ou das bem-intencionadas projeções sobre o que fazer no futuro. O “boleto” de elevado valor, pelo desmazelo humano com referência ao meio ambiente, está sendo cobrado aqui e agora. A envergadura do problema reclama que o planejamento urbano e a gestão ambiental deixem de ser apêndices burocráticos para se tornarem o cerne das decisões políticas.
Os poderes da Nação, em todas as suas esferas — e isso é válido para todos os recantos de nossa aldeia global —, não podem mais se dar ao luxo de mostrar surpresa diante do óbvio previsível. Nada de deixar para depois de amanhã o que era necessário ter sido feito “trasanteontem”.
*Cesar Vanucci – Jornalista – cantonius1@yahoo.com.br