Quem trabalha com comercialização de grãos sabe: o preço que o produtor do Sul de Minas recebe pela sua soja ou seu milho nasce, na prática, a milhares de quilômetros daqui, nos pregões da Bolsa de Chicago (CME). Maior mercado futuro do mundo, a CME funciona como bússola para as principais commodities agrícolas, e qualquer movimento por lá chega rápido ao nosso mercado físico.
Neste momento, com estoques mundiais apertados, todas as atenções estão voltadas para o que chamamos de “mercado de clima” nos Estados Unidos. Julho é o mês que define o potencial produtivo do milho americano; agosto pesa mais sobre a soja. Isso significa que qualquer imprevisto climático no Corn Belt — uma chuva a menos, uma onda de calor fora de hora — já é o bastante para provocar oscilações bruscas nas cotações internacionais.
Para quem produz no Sul de Minas, esse tabuleiro global se traduz em problema concreto de gestão. A volatilidade em Chicago, somada aos custos de produção e ao vaivém do dólar, deixa pouco espaço para improviso na hora de vender a safra ou travar insumos. E é justamente aí que mora o maior risco desta temporada: a tentação de esperar o preço bater no topo para vender tudo de uma vez.
Defendo há anos, na prática do meu trabalho, que essa aposta raramente compensa. O mercado atual não perdoa erro de comercialização. Minha orientação é sempre a mesma: aproveitar os momentos de alta para travar custo e garantir margem, vendendo em lotes fracionados ao longo do ciclo, em vez de concentrar tudo numa única decisão. Planejamento de venda aliado a uma estrutura de armazenagem adequada é o que efetivamente protege a rentabilidade do produtor rural — não a sorte de acertar o pico do mercado.
Diante desse cenário de instabilidade, ferramentas de proteção de preço, vendas fracionadas e apoio em armazenagem deixaram de ser diferencial. Hoje, são condição básica para quem quer atravessar a safra com segurança financeira.
Por Marco Castelli, diretor comercial da Agrobom