“Com a morte de D. Inácio perde o episcopado um grande bispo, mas ganha a Igreja um grande Santo”
No próximo dia 29, segunda-feira, a Paróquia de Nossa Senhora das Dores do Guaxupé estará reverenciando o sexagésimo ano da morte do Servo de Deus Dom Inácio João Dal Monte, bispo que foi da Diocese de Guaxupé entre 08 de setembro de 1952 e 29 de maio de 1963, data em que o mesmo faleceu.
Atualmente, no Vaticano, já tramita um processo de pró-beaticação de Dom Inácio, pois até mesmo em vida Dom Inácio já era considerado Santo por muitas pessoas. Após a sua morte muitos relatam que obtiveram graças e até milagres através de sua intercessão.
Dentre as solenidades constará a celebração de uma missa na Catedral de Nossa Senhora das Dores, a partir das 19h00, com a presença de diversos sacerdotes da Diocese. Por se tratar de uma celebração de vulto a mesma NÃO será celebrada na cripta, como de costume, e, sim, no altar mor do templo.
Dom Inácio João Dal Monte
D. Inácio João Dal Monte nasceu em uma fazenda localizada no município de Ribeirão Preto, em 28 de agosto de 1897, filho dos imigrantes italianos, Luiz Dal Monte e Ângela Gugliemini.
Seus pais eram naturais de Mussolente, Itália, onde em 5 de junho de 1895, nasceu o primeiro filho do casal, Antônio Giovanni. A família imigrou para o Brasil no primeiro trimestre de 1897, radicando-se em uma fazenda de café do município de Ribeirão Preto, onde nasceu o segundo filho, João (Dom Inácio João Dal Monte). Luiz faleceu em Ribeirão Preto, onde foi sepultado, em 20 de outubro de 1901. Um ano após, ou seja, em outubro de 1902, Ângela com os dois filhos retornaram para Mussolente, onde ela faleceu em 7 de abril de 1903. Os filhos, Antônio contava com sete anos de idade, e João com cinco. Depois de órfãos de pai e mãe, os meninos foram criados por um tio materno, Ângelo e pela esposa dele, Maria.
Os meninos estudaram em Mussolente, na escola municipal daquela localidade. Em 19 de agosto de 1931 Antônio Giovanni imigrou para a Colômbia, não se tendo mais nenhuma notícia a seu respeito.
A partir de 3 de setembro de 1908 o menino “João” inicia seus estudos no Seminário de Rovigo. Aos 15 de setembro de 1912, em Bassano, recebeu o hábito de capuchinho e, um ano após, ou seja, em 21 de setembro de 1913, emitiu os votos temporários.
Em 1916 ele foi convocado para integrar o exército italiano como combatente na Primeira Guerra Mundial. Em setembro de 1917 ele participou da batalha de São Gabriel e, em outubro daquele ano, na de Conca di Piezzo. Posteriormente participou de batalhas ao longo do Rio Piave até que, em junho de 1918, caiu prisioneiro dos austríacos. Em novembro daquele ano ele conseguiu fugir do cativeiro, regressando à Itália, obtendo dispensa miliar em 13 de maio de 1920.
Depois de retornar ao Seminário, em Veneza, emitiu sua profissão perpétua em 8 de dezembro de 1921.
No ano de 1922 ingressou na Faculdade de Direito Canônico no patriarcado de Veneza.
Foi ordenado padre, em 05 de abril de 1924, pelo Careal Patriarca Pedro de La Fontaine, e em 30 de julho do ano seguinte recebia o título de bacharel em Direito Canônico.
Naquela época, em Veneza, a Congregação dos Franciscanos organizou um grupo de padres missionários que deveria ser enviada ao Brasil para prestar assistência religiosa, mais precisamente para o Estado do Paraná. Foi nestas circunstâncias é que ele retornou a sua terra natal.
O então Frei Inácio, juntamente com mais seis sacerdotes, partiu de Veneza em 13 de setembro de 1925 com destino a Gênova. Lá chegando, embarcaram no navio “Duca d’ Aosta”, no dia 17 daquele mês e ano, com destino a Santos, no Brasil, onde desembarcaram em 03 de outubro de 1925. De Santos, SP, os sete sacerdotes rumaram para Jaquariaíva, onde chegaram no dia 7 de janeiro de 1925. Assim, Frei Inácio atuou em Curitiba e Tomazina prestando assistência religiosa em Açungui, Cerro Azul, no Alto Ribeira, entre outras localidades do Estado do Paraná. A partir de 1927 foi chamado a Curitiba, tendo como residência o Convento das Mercês.
Em 1928 ele foi eleito conselheiro da Missão a que pertencia, em 1931 foi nomeado superior dos missionários, sendo reeleito Custódio dos capuchinhos no Paraná e Santa Catarina.
No campo pastoral atuou como vigário e pároco em Jaguariaíva (1937 – 1938), Cerro Azul (1926), Curitiba (1925, 1927, 1936) e Santo Antônio da Platina (1938 a 1949) e em seguida foi eleito bispo.
Em 15 de março de 1949 foi eleito bispo coadjutor de Joinville, SC, sendo sagrado no dia 26 de maio daquele mesmo ano. Trabalhou durante três anos como coadjutor de Dom Pio de Freitas, em Joinville. No dia 21 de maio de 1952 foi eleito bispo titular da Diocese de Guaxupé, onde tomou posse no dia 8 de setembro de 1952 daquele ano.
Vitimado de trombose arterial, faleceu na Santa Casa de Misericórdia de Guaxupé em 29 de maio de 1963, sendo sepultado no dia 31 daquele mês e ano, na cripta da Catedral de Guaxupé.
Por ocasião do sepultamento sua urna mortuária, de madeira, foi colocada no interior de outra, metálica, confeccionada de chapa galvanizada, sendo a tampa da mesma sido soldada por Felício Chueiri e pelo filho, Antonino, ambos já falecidos, e por João Chueiri, o tão popular e conhecido Dino Chueiri, atualmente com 98 anos de idade.
Quando o corpo descia à sepultura o então prefeito municipal, Dr. Benedicto Felippe da Silva, assim se pronunciou: “com a morte de Dom Inácio perde o episcopado um grande bispo, mas ganha a Igreja um grande Santo”.
Processo pró-beatificação
Em 2010 as senhoras, Luiza Santos, secretária da Catedral, Selma Perocco Ribeiro do Valle e Neiva Buffoni tiveram a ideia de procederem um tríduo nos dias que antecediam o aniversário de morte de D. Inácio, 29 de maio, nos anos de 2010, 2011, e 2012. A realização do tríduo também tinha a intenção de catalogar graças e até milagres conquistados por fiéis devotos de D. Inácio.
A partir da realização do tríduo a devoção foi aumentando, ficando evidente o desejo dos fiéis de que o bispo fosse canonizado e, consequentemente, considerado santo pela Igreja Católica Apostólica Romana.
Inquérito Diocesano
No ano de 2017, o então pároco da Paróquia de Nossa Senhora das Dores do Guaxupé, Padre Reginaldo José da Silva, solicitou que o pesquisador, historiador e colaborador deste jornal, Wilson Ferraz, elaborasse um documentário a respeito da vida e obra de D. Inácio para substanciar um pedido de autorização para a instauração de uma sequência de procedimentos que poderão culminar, num futuro próximo, com a canonização de Dom Inácio, ou seja, para que ele possa ser reconhecido como santo pela Igreja Católica Apostólica Romana.
Até mesmo em virtude de sua vasta experiência em pesquisas e levantamentos históricos, Wilson, juntamente com a esposa, Maria Luiza Lemos Brasileiro, e com o apoio da secretária, Gisele dos Santos Costa, elaboraram um documentário contendo 181 páginas digitadas em formato “A 4”, com a transcrição na íntegra de publicações a respeito do bispo que tinham sido divulgadas no jornal Folha do Povo, no período compreendido entre 1952 e 1963, época em que o bispo faleceu, além de registros acostado aos livros do Tombo de número 04 e 05, da Paróchia de Nossa Senhora das Dores do Guaxupé.
A segunda encadernação, com 212 páginas, intitulada “O episcopado do Santo Dom Inácio”, na verdade é um livro que retrata em minúcias o dia-a-dia do episcopado do bispo de Guaxupé, com riqueza de detalhes e totalmente fundamentado em reportagens jornalísticas, registros dos livros tombo da paróquia, além de outros documentos.
Em setembro de 2017 a Diocese de Guaxupé solicitou e obteve autorização da Congregação da Causa dos Santos, junto ao Vaticano, para abertura do inquérito diocesano, o qual corre em segredo de jsutiça canônica, o que impossibilita qualquer informação nesta fase.
Em fevereiro de 2018 o bispo da Diocese de Guaxupé, D. José Lanza Neto, nomeou uma comissão de Peritos em História, a qual foi foi composta por Luiz Henrique Marques, presidente; Wilson Remédio Ferraz, secretário; Padre Clayton Bueno Mendonça, o tão popular e conhecido Padre Cleitinho, membro; e durante os trabalhos a mencionada comissão contou com a colaboração de Inácio Walacy de Souza Abranches e Sarah Gabriel Isaac.
Diante da autorização da Congregação da Causa dos Santos, D. Lanza instituiu o “Tribunal” que promoveu a investigação referente à colheita de depoimentos testemunhais, o qual foi composto pelo Padre Reginaldo José da Silva, como delegado episcopal; o sacerdote Henrique Neverston como promotor de justiça, porém, com a morte deste no decorrer os trabalhos, a vaga foi ocupada pelo Padre Francisco Carlos Pereira; a senhora Maria de Lourdes Sandroni, a Lurdinha, como notária atuária, e Rodrigo de Castro, como notário adjunto. Representando a causa junto a Congregação dos Santos, no Vaticano, o postulador da Causa do Servo de Deus Dom Inácio João Dal Montte, o Dr. Paolo Villota.
Em março de 2019, o pesquisador e historiador, Wilson Ferraz realizou uma ampla e minuciosa pesquisa nos estados do Paraná e Santa Catarina, unidades da federação onde D. Inácio tinha atuado como padre e bispo
O trabalho da Comissão histórica consistiu na realização de pesquisas e levantamentos históricos, na Itália, em Ribeirão Preto, em Santo Antônio da Platina, onde o então Padre Inácio João Dal Monte foi pároco, nas cúrias diocesanas de Joinville e Guaxupé, além da cúria dos
Freis Capuchinos, em Curitiba.
Finalmente em 15 de junho de 2022 o inquérito diocesano foi encerrado com a realização de um ato jurídico canônico, presidido pelo postulador, Dr. Paolo Vilotta, e pelo bispo diocesano, Dom José Lanza Neto, com a Catedral lotada de fiéis. Também participaram da solenidade os membros da comissão histórica, do tribunal eclesiástico, sacerdotes de várias paróquias da Diocese e seminaristas.
(Arquivo Maria Luiza Lemos Brasileiro/Wilson Ferraz)