Muzambinho, 23 de maio de 2024

DEPOIS DO 199º ANIVERSÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

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A um ano das comemorações do bicentenário da Independência do Brasil, constatamos que o nosso País anda mais desunido e ameaçador. A população brasileira no ano de 1822 beirava os 5 milhões de habitantes e a de hoje ultrapassa os 210 milhões. Certamente que tudo é proporcional à época e aos costumes, porém, regular, agradar e conter a massa humana de hoje é muito mais difícil.
Sabe-se que os comandos bolsonaristas tiveram a estratégia de orientar seus correligionários para se concentrarem, nas manifestações do último 7 de Setembro, tendo como pontos principais a Esplanada dos Ministérios, no Distrito Federal, e a Avenida Paulista, em São Paulo. Pude constatar a veracidade disso, quando, casualmente, sintonizei uma transmissão que era feita na madrugada desse dia, na Capital Federal, por uma igreja evangélica através de uma plataforma digital. Em dado momento, ela entrevista um caminhoneiro mato-grossense, que não observei se era do norte ou do sul. que se dizia empregado de uma fazenda. Ele estimava a vinda de cerca de 15 a 20 mil manifestantes do seu Estado para o DF. Como bem conheço o mapa do Brasil, vim a refletir que parte dos mato-grossenses originais – os do norte – seguiriam para Brasília devido sua proximidade com a divisa de Goiás e o DF. Outra parte deles e Mato Grosso do Sul iriam pelo Estado de São Paulo, até a Capital, pelas boas rodovias que acessariam nas microrregiões de Andradina e de Presidente Prudente.
Comentários correram soltos que as viagens e outras despesas da massa de manifestantes estavam sendo pagas por patrocinadores do agronegócio e outras empresas. Num jornal televisivo antes do amanhecer do dia 7, foram mostrados pequenos embates entre forças de segurança do DF e manifestantes que chegavam de todas as partes. Numa dessas imagens, por mim vista diversas vezes, apareceu um caminhão com a logomarca da ZAELI no meio dos primeiros invasores da Esplanada dos Ministérios. Sabemos que esta empresa alimentícia tem sede em Umuarama-PR, e de tempos em tempos patrocina o SBT de Sílvio Santos, cujo genro, Deputado Federal Fábio Faria (PSD-RN), é o Ministro das Comunicações desde 2020. Imaginemos e extrapolemos quantos outros fazendeiros e empresas deram retaguarda em apoio ao Presidente e aos protestos contra o STF – Supremo Tribunal Federal – e o Congresso Nacional, a começar pela Havan.
Dias antes das manifestações do 7 de Setembro, recebi um áudio de verdadeiro terrorismo psicológico. Gravado por uma mulher não identificada que diz: “Sábado passado participei de uma reunião com as principais lideranças de Direita do Estado, e o Bira, representante dos caminhoneiros do Estado do ES estava lá”. Então ela noticiava sobre a paralização de caminhoneiros, a partir da madrugada de 8 de setembro, que se intensificaria no dia 10, data a partir da qual nada passaria pelas rodovias a não ser veículos policiais e ambulâncias. Então fazia alerta para as pessoas resolverem seus problemas e estocassem alimentos, porque tudo pararia “até resolver o problema do STF e do Voto Impresso”. O alarme continuava dizendo – sem atribuir a quem – que as redes sociais seriam bloqueadas a fim de evitar a comunicação entre os grevistas. E concluía: “Estamos numa guerra, pior do que a da Covid. A data 7 de Setembro é decisiva para o Brasil, se nada resolver vamos entrar num comunismo e melhor será que você dê um jeito de mudar do Brasil”. Caso o caro leitor queira uma cópia desse áudio poderá me enviar o número do seu “whatsApp” que o farei. Antes leiam atentamente o que escrevi para perceberem quantas contradições e falsos alarmes há no vídeo, cuja reunião de “deslumbrados” acredito que tenha acontecido e gerado pânico em muitos dos presentes.
Todo mundo deve ter passado o nosso 199º Dia da Independência antenado em TVs e Redes Sociais. Desnecessário dizer que as maiores concentrações foram mesmo para os previsíveis locais acima referidos. Não quero aqui entrar na polêmica entre a mídia bolsonarista – se gabando do mar de gente que ocupou tanto a Avenida Paulista quanto a Esplanada do Distrito Federal – e a mídia contrária – que viu um público menor do que o previsto. Ricardo Salles, ex-Ministro do Meio Ambiente, aquele do “passa boi passa boiada”, em entrevista no final desse dia, na Jovem Pan/SP, no Programa “Pingo nos is”, se disse surpreso com tamanha presença de pessoas – calculadas em mais de 100.000 tanto em S.Paulo como em Brasília, afirmando que “não vi isso nem no ‘impeachment’ da Dilma”. Pessoalmente, prefiro ficar com a opinião do presidenciável Ciro Gomes/PDT, em vídeo gravado na data comemorativa: “Levar 125.000 pessoas… isso é muita gente! Mas, fica claro que esse monte de gente é da bolha do Bolsonaro. É gente agressiva. Mas ela revela uma coisa, que, nós, democratas e progressistas, temos de aprender que também temos capacidade de nos mobilizar”. Ciro Gomes ainda avaliou: “O Presidente Bolsonaro não conseguiu sair de sua bolha […] a tentativa de golpe foi frustrada […] neste País, bandido e ditador não se estabelecem mais”. É bom dizer que no DF, o atual deputado bolsonarista e pastor evangélico, Otoni de Paula (PSC/RJ) estava abraçado e feliz com
No centro do cenário das manifestações, convocadas mais de um mês antes pelas redes sociais, estava o Presidente Bolsonaro, que também fez chamamentos para o comparecimento da população. Ele sobrevoou de helicóptero a Esplanada e nela chegou no antigo Rolls Royce presidencial, dirigido pelo ex-campeão de F-1, Nelson Piquet. Envergando a sua faixa como se estivesse dando início a um novo Mandato, logo fez seu discurso centrando suas críticas no Ministro Alexandre de Moraes, do STF. Em seguida voou para São Paulo, discursando na Avenida Paulista, aonde das ásperas críticas do DF, passou até a xingamentos ao mesmo Ministro e desafios ao não cumprimento de decisões do STF.
Participante como Presidente da República de manifestações infestadas por faixas e cartazes, escritas em português e inglês, ou seja para o mundo, que pediam “intervenção militar”, “limpeza no STF” e inúmeras outras palavras de ordem antidemocráticas como isentar Bolsonaro dessas maquinações? Ou como concordar com o ex-Ministro Ricardo Salles na aludida entrevista? Lá ele assim se expressou: “São essas manifestações da sociedade brasileira que querem solapar”. Se tais ameaças têm teor golpistas, como pode o âncora político Augusto Nunes, da TV Record, Portal R7 e, ainda do programa “Os Pingos nos is”, da Rádio Jovem Pan tentar camuflar um golpe muito sonhado, indagando: “Quem está querendo o Golpe?”. Ou ele mesmo, querendo equiparar a agressividade de Bolsonaro, um ex-militar e chefe da Nação, com Guilherme Boulos, na condição de simples ativista dos sem-teto em São Paulo e candidato derrotado em eleições paulistanas, da seguinte forma: “Bolsonaro é um primor se comparado a Boulos”.
Certo é que apesar da considerável massa humana havida no 7 de Setembro, o resumo mais qualificado ficou com o que reproduzimos de Ciro Gomes, acima. Pesquisas recentes demonstram que Jair Bolsonaro ainda carrega de 20% a 30% de seguidores, o que não deixa de ser um feito, embora quase toda essa legião esteja imbuída de propósitos autoritários e contrários à Constituição brasileira. Por isso mesmo, partidos como o PSDB de Aécio Neves e o PSD de Gilberto Kassab já cogitem de “impeachment”. O Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), contra o qual se voltam os bolsonaristas, suspendeu as atividades do Senado neste resto de semana, a fim de que possa tecer melhores avaliações. Aliado de Bolsonaro, o Presidente da Câmara dos Deputados pede “pacificação”. O Presidente do STF, Luís FUX, esbravejou: “Ninguém fecha esta Côrte”, ameaçando agir contra o Presidente da República caso ele venha descumprir ordens da Suprema Corte.
Por fim, a Greve dos Caminhoneiros propalada no vídeo a que me referi, pipocou de modo desorganizado Brasil afora. Além do mais, diante da repercussão negativa dos discursos do Presidente Jair Bolsonaro, que lhe renderam mais perdas político-partidárias, a paralização dos caminhoneiros seria um tiro no pé dele próprio. Por isso, desde esta 4ª feira, o Presidente Bolsonaro gravou um vídeo dirigido aos caminhoneiros pedindo que se desmobilizem porque “vai atrapalhar ainda mais o Brasil, causando desabastecimento e inflação”. Certo é que na manhã desta 5ª.f., 9, dois importantes pontos de paralização de caminhoneiros em Minas Gerais foram liberados, com a pacífica intervenção da Polícia Rodoviária Federal e a PM-MG, sendo eles: na BR-381/Rodovia Fernão Dias/ em Igarapé/Grande BH e na BR O40/BH-Brasília, em Paracatu. A tendência é para a rodagem normalizada em todas as rodovias numa paralização que era de apoio a Bolsonaro, à diminuição do ICMS estaduais sobre os combustíveis, à melhoria da malha rodoviária nacional e à atualização dos fretes. O movimento corria mesmo o risco de nascer defeituoso, porquanto duas grandes entidades se recusaram dele participar, como a ABRAVA – Associação Brasileira de Condutores de Veículos Autônomos – e a CNTRC – Conselho Nacional dos Transportadores Rodoviários de Carga.

Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG
(1995/98; 1999/2003) *[email protected]*

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