Muzambinho, 23 de maio de 2024

PANDEMIA E DISTOPIA (I Parte)

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Servindo-me desta época de reclusão, muitas vezes voluntária, outras vezes imposta pelas autoridades políticas e sanitárias, poucos meses atrás resolvi melhor estudar a crítica literária a respeito de livros que possuo, mas, nem de todo bem lidos. Um deles, mais antigo e muito conhecido, Admirável Mundo Novo, escrito em 1932 pelo inglês Aldous Huxley (1894/1963); e o outro de autoria de Eric Arthur Blair (1903/50), outro britânico, mas nascido na Índia colonial, que escrevia sob o pseudônimo de George Orwell.
Honestamente, foi então que tive a surpresa de me deparar com a palavra DISTOPIA aplicada na Literatura. Na Medicina ela me era familiar, principalmente na minha área de atuação, a Ginecologia, onde ela tem aplicação habitual. Aqui tem o significado tanto um órgão ou tecido orgânico fora do seu lugar normal. Por exemplo, prolapso do útero, ou seja, esse órgão saindo de maneira anormal pelo canal genital feminino, ou melhor dizendo, exteriorizando-se parcial ou totalmente; ou um ectrópio ou ectopia, que lhe são sinônimos, popularmente conhecidos por feridas do colo uterino. Neste caso uma camada de células colunares toma o lugar da camada normal do epitélio estratificado escamoso que reveste como uma pele a parte externa do colo do útero, a partir do orifício externo do mesmo, tudo isso localizado dentro do canal vaginal feminino. Algum oftalmologista poderá me questionar que ectrópio é da especialidade dele. Sim, mas entendo que o ectrópio dessa especialidade é pouco observada na atualidade, certamente porque as pessoas estão sendo melhor cuidadas e tendo melhor acesso aos médicos dos olhos. Vi muitos casos na minha infância, geralmente pessoas mais velhas com uma das pálpebras viradas para fora, expondo essa borda avermelhada do olho ainda mais vermelha pelas inflamações e secura da lágrima. Ainda existe, no caso, o inverso que é o entrópio, que é a viragem para dentro, causando até ulcerações da córnea, que é a parte anterior e transparente dos olhos, devido aos cílios que ficam a lhe roçar durante o piscar.
Passaram-se dias e meses. Entretanto meus rascunhos manuscritos não me deixaram esquecer da distopia literária. Como gosto mesmo de dicionários e de enciclopédias, de preferência em numerosos volumes, resolvi hoje pesquisar o termo distopia. No volume único do bem conceituado Enciclopédia e Dicionário Koogan-Houaiss, Edições Delta do ano 2000, não a encontrei, para a minha frustração, pois, do verbete ‘disputar’ segue-se ‘disquete’. Fiquei mesmo intrigado e fui além neste mesmo volume, encontrando ‘ectopia’ (s.f. Med. Deslocação ou posição anômala de um órgão). Também o ‘ectrópio’ (s.m. Med. Estado das pálpebras reviradas para fora). Em dois pequenos dicionários, nem vestígios de distopia. Recorri à vetusta coleção Caldas Aulete/Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, da 2ª Edição Brasileira em 5 volumes, Editora Delta, 1970, onde encontrei: Distopia, s.f. (med.) situação anômala de um órgão. // F.gr. Dys (mal) + topos (lugar) + ia. Recorrendo às abreviaturas o F. se traduz por ‘formação’ e gr. grego. Cadê o significado propriamente literário?
Retomei meu antigo rascunho e voltei a fundo na internet para a produção deste artigo. Lá atrás, minha ideia seria mesmo associar pandemia com distopia, porquanto eu tinha anotações extraídas do “site” Segredos do Mundo/R7, através do link: segredosdomundo.r7.com/distopia-voce-sabe-o-que-e?-definicao-conceitos-e-obras. Desse texto de Emilly Krishna, atualizado em 10/05/2019, que cita como fontes a Revista Galileu, Infoescola, Significados e Obviousmag, anotei: “A palavra distopia não é tão falada assim no mundo intelectual de hoje. […] Mas, para explicar melhor, a palavra distopia é o contrário de utopia. Esta, de modo geral, significa um mundo irreal, um universo paralelo, inimaginável, lugar fictício. Basicamente, um mundo que nunca irá existir, pois é um mundo perfeito. Enquanto isso, a palavra distopia, que é o contrário de utopia, significa um universo autoritário, desigual e com divisão de classes econômicas. Basicamente, um mundo que tem a distopia é um universo controlado pelo Estado, o qual explora a classe inferior, os tornando súditos, um meio opressor, com condições precárias de humanidade. Contudo, nesse mundo os problemas são camuflados, fingindo uma perfeição do sistema, o que resulta em uma estupidez coletiva. A literatura distópica quase sempre retrata uma sociedade construída no sentido oposto da utopia. Em vista disso, se caracteriza pelos governos autoritários, ditatoriais. Ou seja, governos que exercem um poder tirânico e um domínio ilimitado sobre o grupo social. […] As principais obras que relatam governos que praticam a distopia são: ‘1984’, ‘Laranja Mecânica’, ‘Admirável Mundo Novo’ e ‘Farenheit 451’. Enquanto nas telas, temos exemplos de filmes e seriados que colocam a distopia como principal elemento. Como por exemplo, o filme ‘V de Vingança’, o seriado ‘Black Mirror’, além das obras como ‘3%’, ‘Jogos Vorazes’ e ‘Maze Runner’. Basicamente, eles mostram bárbaros regimes totalitários, fábulas, gangues violentas, controle biológico, uso indiscriminado de drogas e queima de livros. Esses filmes, livros e seriados visam denunciar esse tipo de sistema. A literatura distópica surgiu diante de trilhões de notícias ruins, como foi a época da Primeira Guerra Mundial, também da quebra da Bolsa de Nova York, a ascensão de regimes fascistas e o nazismo, resultando na Segunda Guerra Mundial. […] Consequentemente, a literatura procurou discutir problemas sociais de uma forma mais elaborada. Ou seja, levando como objetivo chamar a atenção do leitor para uma realidade que pode ser real. Contudo a busca do Estado por uma sociedade perfeita nunca irá ter fim”.
O anseio por uma sociedade perfeita enfatizada no final do texto acima foi, primeiramente, transformada no livro ‘Utopia’ em 1516 por Tomás Morus (1478/1535), que, segundo o meu já citado Koogan-Houaiss, foi um humanista, membro do parlamento inglês e chanceler no reinado de Henrique VIII. O conhecimento por mim adquirido a respeito desse livro vem das minhas aulas ginasianas de História Geral, magistralmente ministradas pela saudosa professora Olga Santos Neves no Colégio Estadual de Muzambinho. Pelo “site” e-biografia (ebiografia.com/Thomas_More/) refaço leitura no trabalho da Profa. Dilva Frazão, bacharel em Biblioteconomia pela UFPE. Dele constam outras atividades desempenhadas por Morus como escritor, tradutor, jurista, conselheiro e confidente do rei, além de Presidente da Câmara dos Comuns. Estabeleceu divergência com o Rei Henrique VIII quando este se divorciou de Catarina de Aragão, que apenas lhe proporcionou uma filha, temendo ele morrer sem deixar filho varão. Impedido pela religião de casar-se, de novo, com Ana Bolena, rompeu com a Igreja de Roma e veio a chefiar nova igreja independente. Morus se negou a reconhecer essa chefia religiosa por parte do rei, bem como recusou-se a participar da coroação da nova rainha. Foi preso na Torre de Londres, depois condenado à morte e decapitado. Thomas More foi beatificado pelo Papa Leão XIII no final do século XIX e canonizado em 1935 pelo Papa Pio X.
O meu propósito da abordagem correlacionada de Pandemia com Distopia se deu por conta do entendimento que a humanidade atravessa momento crucial sob o ataque impiedoso e invisível de um inimigo viral, que provoca a nova enfermidade da CoViD-19 (Corona Vírus Disease = Doença = ano 19). Certamente que aparecerão livros distópicos no decorrer desta batalha que já se alonga. A Ciência e os Profissionais de Saúde de todo o nosso planeta estão enfrentando seres submicroscópicos devastadores, mas que, temos a convicção, não dizimarão toda a população humana. As estatísticas são estarrecedoras. No mundo os que foram infectados quase chegam a 200 milhões de pessoas, causando mortes que beiram os 4 milhões. Os sobreviventes terão histórias pungentes das vidas ceifadas e os atos de heroísmo que se multiplicam. A literatura da distopia não se restringe apenas a sociedades sob o jugo totalitário. Os conceitos foram ampliados. A obra do escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus, ‘A Peste’, de 1947 é assim considerada e tem a ver com a atual Pandemia. Ao adentrar nesse cenário de realismo fantástico, fiquei a questionar que a grosso modo eu nada lera sobre a inclusão de Júlio Verne neste rol. Acabei por encontrar trabalhos que o enquadram nas chamadas distopias científicas, mais adequadas do que uma pura ficção científica. Nas próximas semanas apresentaremos a II Parte deste artigo, no qual discorreremos sobre este gênero literário, suas obras e seus autores, inclusive sobre A Peste, de Camus e a CoViD-19.

 

(Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e
deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) [email protected])

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