Muzambinho, 22 de maio de 2024

PANDEMIA E DISTOPIA (II Parte)

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                Na semana passada, publicamos a Parte I desta espécie de ensaio de um neófito no campo literário da Distopia. Acostumado com o uso dessa palavra na literatura médica, nunca me dei conta da sua aplicação fora deste contexto. Principalmente porque nunca pertenci ao meio acadêmico nem ao menos cursei Letras. Também não estou ainda convencido do seu pertencimento à antiguidade na arte de escrever, porquanto demonstrei que alguns dos dicionários editados nos últimos 50 anos não trazem essa referência a não ser na medicina. Entretanto, nos últimos dez anos, têm sido tantos as dissertações concernentes à utopia e o seu contrário que me tornei ousado em afirmar que a distopia foi uma redescoberta recente.

                Minhas buscas passaram a ser na origem do seu uso, na correlação que vislumbrei entre a pandemia que assola o nosso mundo e suas implicações com a distopia, bem como no questionamento da inserção das viagens extraordinárias de Júlio Verne nesse gênero literário.

                Acabei por encontrar um filão aurífero-linguístico num artigo precioso, ao meu modo de ver, publicado na Revista UFMG, Belo Horizonte, V.24, N. 1 e 2, P. 40-59, JAN/DEZ. 2017, de autoria de Andityas Soares de Moura Costa Matos, Professor Adjunto de Filosofia do Direito e disciplinas afins, bem como Membro do Corpo Permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito, ambos da Faculdade de Direito e Ciências do Estado da UFMG. Repetindo a semana passada, a formação da palavra distopia vem do grego: “dys” (mal, ruim) + “topos” (lugar) + “ia”. Nas páginas 43 e 44 da aludida revista da UFMG, escreve o autor que “por sugestão de François Ost, distopias seriam utopias às avessas, ou seja, más utopias, sociedades imaginárias nas quais as condições de existência são muito piores do que aquelas que vigoram em sociedades reais. Parece que o termo ‘DISTOPIA’ foi usado pela 1ª vez, em 1868, por Greg Webber e John Stuart Mill, em discurso no Parlamento Britânico”. Diz o artigo: “As sociedades distópicas se caracterizam pela inexistência de direitos e garantias fundamentais, sendo altamente autoritárias, quando não totalitárias. A principal vítima sacrificada no altar dos Estados distópicos é a liberdade”.

                  Se acima tecemos considerações do avesso, voltemos ao outro lado, à UTOPIA. No trabalho acadêmico de Fabiana Simão Bellizze Carneiro, Doutora em Estudos Literários pela UERJ e Professora Adjunta de Letras e Linguística da Universidade Federal de Goiás, em publicação na revista eletrônica Darandina, da UFJF (U.Fed. de Juiz de Fora), com o longo título ‘Da Mitologia à Ficção Científica: o Mundo (Dis)Utópico de Monteiro Lobato no Conto Era do Paraíso’, que pode ser acessado pelo pdf – https://www.periodicos.ufjf>article>view>pdf, na página 7 pinçamos: “O termo UTOPIA, cunhado pela 1ª vez pelo inglês Thomas More, no início do século XVI (1516), esteve muito atrelado a um projeto político perfeito de sociedade igualitária e justa. Em sua ilha imaginária, Morus projeta uma sociedade em que tudo está tão bem organizado e a comunidade bem governada”.

                    Na 1ª Parte, citamos a autora Emilly Krishna que escreveu: “A palavra distopia não é tão falada assim no mundo intelectual de hoje”, numa publicação atualizada em 10-Mai-2019 no “site” Segredos do Mundo/R7, sugerindo que esse gênero esteve fora de evidência. Já o blog #CCSPDECASA, do Centro Cultural São Paulo, em texto de João Vítor Guimarães, em fevereiro de 2019, intitulado ‘O limite sempre em mente: a distopia na literatura e no cinema’ contém: “O desconhecimento acerca do futuro, ao mesmo tempo que gera medo e incerteza em todos, permite a elaboração de uma série de hipóteses a respeito do que está – ou não – por vir. É justamente uma estimativa fictícia daquilo que poderia ser um lugar (topos) ruim (dis) para se viver é o que compõe o fio condutor do gênero distópico, contemplado na literatura e no cinema com a mostra Distopia, em cartaz no CCSP, em Fev/2019”.

                       Nelson Marques, Professor de Biologia na Faculdade de Medicina da USP, e um dos fundadores do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos, em sítio eletrônico da SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – de 2021 produziu o trabalho: ‘A Máquina do Tempo. A Ficção Científica tem futuro?’.  Nele, tece considerações sobre Júlio Verne (1.828/1905) e H.G.Wells (1866/1946) considerados os precursores do gênero literário denominado “ficção científica”. No ano do centenário da morte de Júlio Verne, a revista Planeta reafirma esse título de Precursor, “vindo ele a inspirar várias gerações de escritores, ilustradores e cineastas”, acrescentando que “a parte mais extraordinária da sua obra são as inumeráveis invenções proféticas tais como a televisão, submarino, cápsulas e foguetes espaciais”. Dentre suas obras visionárias são citadas: Viagem ao Centro da Terra(1864), Da Terra à Lua (1865), Vinte mil Léguas Submarinas (1870), A Volta ao Mundo em 80 Dias (1873) e outras. Por outro lado, HG Wells (Herbert George) escreveu livros como: A Máquina do Tempo (1894), A Guerra dos Mundos (1898), Os Primeiros Homens na Lua (1900). Embora há quem insista em classificar tais obras como “distopia científica”, a rotulagem é considerada inadequada pelo claro motivo de que o marco da utopia é Thomas Morus, no século XVI e sua antítese, a distopia só viria a ser considerada gênero literário no Século XX, a partir de significado com conteúdo político, porque seu ambiente é “lugar ruim” envolto no autoritarismo.

                          Endereços digitais como a revista Bula, através de Marina Felipe em Listas, ou no Pensador (pensador.com/livros de distopia) auxiliam no reconhecimento desse gênero literário, elaborando listas dos 15 livros mais ligados a histórias futurísticas, nas quais, pelo declinio da sociedade são criados cenários ideais para o estabelecimento de regimes ditatoriais. As listas dos 15 de ambas têm pouca variação.

                            Particularmente, sou possuidor dos mais clássicos desses livros, com que abri meu artigo da semana passada: Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley e 1984 (1948), de George Orwell. Deste mesmo autor minha biblioteca conta com Revolução dos Bichos (1945) e com O Processo, de Franz Kafka (1925). Não interessa que eu tenha os livros, interessa difundi-los. Somando-se aos dois primeiros que citei, completariam o quinteto ou sexteto dos mais famosos distópicos: Farenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, numa sociedade cheia de restrições, onde os bombeiros ao invés de combaterem o fogo, ateavam fogo em livros e bibliotecas; Laranja Mecânica (1962), escrito por Anthony Burguess e levado ao cinema por Stanley Kubrick, em 1971, mostrando uma sociedade robótica e gangs violentas. Acrescentemos: NÓS (1924), por Evgueny Zamiatin, espelhando o totalitarismo da antiga União Soviética; Androides Sonham com Ovelhas Elétricas (1968), de Phillip K. Dick, que inspirou o filme Blade Runner, o Caçador de Androides (1982), cuja narrativa é da Terra devastada por uma guerra atômica e os sobreviventes se deslocando para colônias espaciais; A Mão Esquerda da Escuridão (1969), de Ursula K. Leguin, civilizações extraterrestres; Neuromancer (1984), e William Gibson, ciberespaço no qual a a humanidade se conecta para acesso virtual; O Conto da Aia (1985), de Margaret Atwood, narra um Estado teocrático e totalitário, onde a procriação se dá através das aias; Não me Abandone Jamais (2005), por Kazuo Ishiguro, remetendo a histórias idílicas de um internato; A Guimba (2010), por Will Self, sátira pós-ataques do 11 de Setembro;  Submissão (2015), de Michel Houellebeck, este abordando eleições presidenciais na França em 2022 e as atividades do Partido da Fraternidade Muçulmana; e Jogos Vorazes, de Suzanne Collins.

                      Fechamos este assunto, voltando a citar a obra do escritor e filósofo franco-argelino, Albert Camus, que publicou A Peste, em 1947. O livro descreve um surto epidêmico que devasta cidade argelina de Orã durante dez meses, com a narratriva centralizada na figura de um médico. Seria uma simbologia da Ocupação da França pelo nazismo, naquela época. De qualquer maneira o livro mostra o drama das pessoas contaminadas, o seu isolamento e as milhares de mortes. Uma pequena mostra do que podem representar as pandemias como a do Novo Corona Vírus, que confrontou todo o avanço científico e tecnológico da humanidade neste Século XXI, conseguindo deter o ritmo frenético em que vivemos, chegando mesmo a parar, literalmente, cidades onde isto era impensável, tipo Nova York.     

 (Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e
deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) [email protected])

   

 

 

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