Década de 1920, período de prosperidade econômica e efeverscência cultural no ocidente; o Brasil, em transformação, presenciou a Semana de 22 e, em 1928, o lançado de Macunaíma e do Manifesto Antropológico, em cujas páginas, poucos meses depois, seria publicado o poema No Meio do Caminho Tinha uma Pedra, de uma jovem e desconhecido escritor mineiro.
Longe do burburinho dos centros urbanos, em Muzambinho, pequena cidade da região cafeeira do sul de Minas, era criada a primeira escola noturna mista, abrindo espaço para a educação feminina. Mas distante ainda estaria o tempo em que o mundo começaria a entender que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, o que abalaria os pilares da sociedade patriarcal.
Mulheres especiais não se envergam às circunstâncias que lhe são impostas, forjam o próprio caminho; assim foi com Helena Armond e Meiga Villas Boas Vasconcellos, nascidas em 1928, em Muzambinho. E foi no mundo das artes que ambas encontraram um caminho de resistência e manifestação de individualidade.
Com 10 anos, Helena mudou-se para Presidente Prudente, onde se casa com Moacyr de Oliveira, e tem dois filhos. Sua carreira artística, construída em São Paulo, a aproxima de artistas como Ernestina Karman, e vai em direção a uma arte mais conceitual e ecológica, o que, nos dizeres de Mário Shenberg, a coloca no contexto de “arte catastrófica e de arte ecológica.
Meiga, quando adolescente, restaurou os doze quadros da Via Sacra da Igreja São José; seus desenhos ajudavam a enfeitar arcos de bambus e tapetes de serragens, flores e ciprestes, da procissão de Corpus Christi. Como jovem professora, foi se aperfeiçoar no Instituto de Educação, em Belo Horizonte, onde conhece o mestre Guignard. Casa-se em 1953, com João Marques de Vasconcellos, com quem teve nove filhos. Com a vinda definitiva para a Belo Horizonte, em 1971, inicia-se a fase mais produtiva de sua vida, como pintora e escritora.
Helena foi uma artista multidimensional (pintora, escultora, poetisa e pesquisadora). Era mutável e inesperada, um “aquário de opoca”, como ela mesmo se define, e também uma inconformista, dotada de rebeldia artístico-existencial, capaz de surpreendentes voos solo: “Não vendo/ mel/ ou melado/ nem manjares/ vendo/ pimentas/ que/ abrem bocas/ que babam”. Ou, então: “sigo a trilha do tigre/ ando no fio na navalha/ convivo com deuses ferozes/ entendo cada canalha”. Ou, ainda, quando busca uma fórmula perfeita para forjar um verbo: “Quando/ falo/ de/ fogo/ verbo/ se/ faz forma (…) num fogo/ ad náusea/ queimo proposições/ em decomposições/ das palavras”. No seu cantochão, “o pranto é água benta”, e parece elevar-se aos ares, ao mesmo tempo denso e fluído, sonoro e frágil, trágico e inescrutável, lembrando, por vezes, uma oração, atemporal, a alguma deusa antiga, distante.
Meiga, por sua vez, sente pena da humanidade e quer enchê-la da luz, captar e preservar a mais preciosa, delicada e efêmera beleza das coisas. Seu processo criador, nos dizeres de Maris’Stella Tristão, “desenvolve-se (…) sob a inspiração constante da mãe natureza, plena de luz e cor”. É uma grande contadora de histórias, cria imagens ao escrever, conta histórias ao desenhar. Seus textos transmitem imagens; suas pinturas, contam histórias. São delicados, cheios de cores, detalhes, relevam tradições, costumes, personagens, festividades populares, brincadeiras de criança. Mário Shenberg elogiou as
pinturas de Meiga, destacando a limpidez das cores, o elaborado senso de detalhe, a requintada singeleza das imagens enraizadas na cultura local.
Sobre ela, Bartolomeu Campos de Queirós costumava dizer que “possui uma intensa reserva de significantes que só a fantasia pode revelar.” Para Maris’Stella Tristão, “o processo criador de Meiga se desenvolve entre dois polos opostos – a simplicidade e o requinte – que bem definem o seu modo de ser. Ao mais simples elemento substantivo (…) Meiga empresta qualidades superlativas, transformando-os, com coração e técnica, em obras de admirável arte.”
Como no trecho do poema dedicado ao pai: “O relógio do meu pai/ Era uma lua cheia/ Enluarada./ Desencontro/ Dos algarismos/ Tempos/ Sobre rodela/ Prateada./ Nascia o sol/ Na lua do relógio./ Encontros/ Sol e lua”. Ou no poema-denúncia sobre um menino que morava na rua, como tantos outros das nossas metrópoles: “Menino/ Você tem o abrigo de céu/ Conversa com o mar/ Proseia com a lua/ É dono do ar/ (…) Aprende mecânica na piorra que rola/ Lápis de dedo escreve no chão/ Nuvens são mapas fluentes… e se vão/ Soma e divide as estrelas do céu.”
Uma expressão de delicadeza poética, quase onírica, encontra-se no livro A Boa Viagem para Belo Horizonte: “Um dia, Nossa Senhora da Boa Viagem veio morar no belo horizonte, trazida por um Rei que não era rei. Ela continua no mesmo lugar onde aportou. A capelinha é, agora, a Igreja Matriz da Boa Viagem, dia e noite aberta aos que imploram a proteção da Padroeira. Recebe de braços abertos a todos que aqui chegam, movidos por sonhos”.
Helena, após intensa inquietação intelectual, parece ter se apaziguado, quando escreve: “Há muito deixei as aquarelas/ pesquiso fractais de humanidade/ e….sem ruído/ desço o/ vidro da janela. Num mundo de incertezas e dúvida, ela se diz “mãe e filha das cismas”, e observa uma garotinha que “abraça dois balões amarelos/ en-canto do vento que passa”, passageira, fugaz, a vida. Mas ela acreditava na existência de “uma estrela que erra…. mas ilumina a terra. Ela nos deixou 20 livros. Após sua partida, em 2014, eles continuam a iluminar e encantar as pessoas.
Meiga é um facho benfazejo de luz; possui de 10 livros e dezenas de pinturas, espalhadas por diferentes locais. Reside hoje em Belo Horizonte com seu marido, rodeada pelos filhos, noras, genros, netos, bisnetos e amigos.
Dois olhares distintos para a vida e a arte; mas sensíveis aos mistérios do olhar. Para Helena: Se existe o olho azul/ o preto o verde o canela/ olho de jabuticaba/ o cinza o da cor das serra/ o aço o laranja o mel/ o claro o escuro o terra/ deverá haver com certeza/ a diferença no “ver”. Meiga, no livro O Olho do Camaleão,“arranca os olhos” do camaleão para plantá-los no lugar dos seus, de maneira que a metamorfose vida/ arte possa se concretizar: “Fora do espaço e do tempo, eu era um enorme olho de camaleão, em transe. Universo adamantino estilhaçou-me a vida (…) adensei-me. Era folha, nervação, gotículas de orvalho. Rodopiei pela via, penetrando organismo e alma no universo irradiante”.
Muzambinho, berço de tanta gente ilustres, comemorou, no dia 25 de janeiro, o nascimento de Helena, Imortal da Afesmil – Academia Feminina Sul-Mineira de Letras, e homenageia Meiga, minha mãe e Acadêmica, Parabéns à Afesmil pelo belo e necessário trabalho de resgate e valorização das escritoras de origem sul-mineira.
(POR: GLÁUCIA VALE / @AGLAUCIAVALE)
MENINO DA RUA
Meiga Villas Boas Vasconcellos
Menino,
Você tem abrigo do céu. Conversa com o mar.
Usa cheiro de terra. É dono do ar!
Os vales sãos seus. Os montes também.
Grilos, caracóis…flores e fontes.
As ruas são suas.
Nas mãos traz somente, menino da rua,
O livro da vida pra folhear.
Você é um Deus. E pobre capeta.
Muito xereta:
Suga mel do seio da flor.
Explora tesouros em lata de lixo.
Masca chiclete de seiva da planta.
Desvela o mistério do leito dos rios.
Lambuza a cara de lama e de dor!
Você, em segredo,
Guarda rico brinquedo:
Uma coleção de pedrinhas e grãos.
Em domingo de sol, joga futebol
Com bola de meia.
Mora num castelo feito de areia.
Besouro e barbante o seu avião.
Você tem estudo?
– Com o lápis dos dedos escreve no chão.
– Multiplica e divide estrelas do céu.
– Segue o traçado no mapa das nuvens.
– Lê dicionário só de xingar.
Nas mãos traz somente, menino da rua,
O livro da vida pra folhear.
Você é um Deus. Um pobre capeta
Você tem o mundo, com toda beleza.
De barriga vazia, você nada tem.
Seu dia de hoje é de sonhos, sem voz,
E o seu “amanhã”, perde-se em nós.
Poema escrito em 2002