Safra de café mantém bom desempenho, mas El Niño acende alerta para 2027, aponta Fórum Técnico da Cooxupé

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Fenômeno está entre os mais intensos da série histórica e exige atenção ao manejo das lavouras, às múltiplas floradas e às estratégias para preservar a produtividade do café

A Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé realizou, no dia 29 de julho, o 8º Fórum Café e Clima, em Guaxupé (MG). O encontro reuniu especialistas para apresentar uma análise das condições meteorológicas registradas ao longo do último ciclo agrícola, seus reflexos sobre a safra 2026/2027 e as perspectivas climáticas para a produção de café em 2027, marcada pela influência de um El Niño de forte intensidade.

“Além da análise das condições climáticas e das projeções para as próximas safras, os palestrantes compartilharam orientações técnicas para apoiar os cooperados no planejamento das atividades cafeeiras, na tomada de decisões e na mitigação de riscos ao longo do ciclo produtivo”, destacou o presidente da Cooxupé, Carlos Augusto Rodrigues de Melo. 

 

Área de atuação da cooperativa cafeeira

O coordenador do Departamento de Geoprocessamento da Cooxupé, Guilherme Vinicius Teixeira, apresentou uma análise das condições climáticas ao longo do ciclo produtivo e seus reflexos sobre a safra 2026/2027, na área de atuação da cooperativa. Segundo ele, o atraso no desenvolvimento vegetativo, iniciado em 2024, reduziu o potencial produtivo das lavouras e afastou a expectativa de uma supersafra. “A safra é considerada boa, com rendimentos dentro da média histórica, mas não se trata de uma supersafra, pois a capacidade produtiva foi comprometida ainda no início do ciclo”, afirmou.

O especialista explicou que o desenvolvimento vegetativo foi considerado médio, com formação de 12 a 13 internódios, seguido por três floradas mais expressivas, que resultaram em uma maturação e colheita menos uniforme. Entre janeiro e março, os elevados volumes de chuva dificultaram os tratos culturais, favoreceram a incidência de pragas e doenças e atrasaram o manejo nutricional e fitossanitário. Já entre abril e julho, as condições climáticas aceleraram a maturação dos frutos em um primeiro momento e, posteriormente, atrasaram a colheita, aumentaram os desafios no pós-colheita e favoreceram a queda de folhas e frutos.

Segundo Guilherme Teixeira, as precipitações mais recentes e as amplitudes térmicas também comprometeram a sincronização das gemas, o que pode antecipar e multiplicar as floradas da próxima safra. “Embora as lavouras apresentem atualmente entre 14 e 15 internódios, esse cenário não garante uma supersafra em 2027. As áreas com carga média e baixa foram as mais afetadas pelas chuvas da fase final do ciclo e pela maior produção de etileno, exigindo acompanhamento técnico e manejo adequado para preservar o potencial produtivo das próximas safras”, considerou.

 

El Niño forte deve marcar o ciclo 2026/2027

O agrometeorologista e sócio-fundador da Rural Clima, Marco Antônio dos Santos, confirmou que a safra 2026/2027 será influenciada por um El Niño de forte intensidade, com potencial para figurar entre os três mais intensos registrados nos últimos 76 anos. Segundo ele, o fenômeno deverá provocar temperaturas elevadas durante o fim do inverno, a primavera de 2026 e o verão de 2027, além de períodos pontuais de estiagem. “O El Niño está confirmado e deverá ser um dos três maiores já registrados na série histórica. Teremos temperaturas muito elevadas ao longo da primavera e do verão”, relatou.

Apesar do cenário de calor acima da média, Marco Antônio destacou que as regiões Sul e Sudoeste de Minas Gerais e a Média Mogiana paulista deverão registrar chuvas relativamente regulares, favorecendo o desenvolvimento das lavouras. Já o Cerrado Mineiro deve concentrar os maiores impactos do fenômeno, com possibilidade de períodos secos durante a segunda metade da primavera (novembro/dezembro) e ao longo do verão. 

O especialista ressaltou, no entanto, que um dos principais pontos de atenção será o comportamento das floradas. O inverno mais úmido e o início da primavera com maior frequência de chuvas podem favorecer a ocorrência de múltiplas floradas, aumentando o desafio para o manejo das lavouras. “A preocupação maior é com as várias floradas, que podem ocorrer em função do inverno mais úmido e do início da primavera chuvoso”, ponderou.

 

Mitigação dos riscos: planejamento e manejo antecipado

O professor doutor em fisiologia vegetal, José Donizeti Alves, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), destacou que, embora o El Niño previsto para o ciclo 2026/2027 represente um desafio para a cafeicultura, seus efeitos podem ser minimizados com planejamento e adoção de tecnologias adequadas. Segundo ele, o período pós-colheita é decisivo para preparar as lavouras para as próximas floradas e preservar o potencial produtivo diante de um cenário climático mais adverso. “O El Niño será forte, mas não é invencível. Hoje existem tecnologias capazes de amenizar seus efeitos. O risco maior é quando o produtor deixa de planejar e executar as práticas necessárias”, analisou.

Entre as principais recomendações, Donizeti ressaltou a importância de antecipar os tratos culturais, com atenção especial ao manejo fitossanitário, à adubação e ao uso de bioestimulantes. Para ele, essas práticas fortalecem as plantas, aumentam sua capacidade de enfrentar os estresses climáticos e criam condições mais favoráveis para a emissão e o desenvolvimento das floradas. “Todo planejamento precisa começar agora, na fase pós-colheita. É nesse momento que o produtor prepara a lavoura para enfrentar os desafios do próximo ciclo”, declarou.

O pesquisador também destacou o papel do sistema radicular na resiliência das lavouras. Com base em observações realizadas durante o El Niño de 2024, ele afirmou que cafeeiros com raízes profundas apresentaram maior capacidade de suportar longos períodos sem chuva, mantendo o desenvolvimento da planta mesmo em condições de sequeiro. “Uma lavoura com sistema radicular bem desenvolvido consegue acessar água e nutrientes em maiores profundidades, tornando-se mais resistente aos períodos de estiagem. Quando raízes e parte aérea se fortalecem mutuamente, a planta ganha capacidade para enfrentar os estresses climáticos e preservar seu potencial produtivo”, concluiu.

 

Phábrica de Ideias – Assessoria de Comunicação

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