Muzambinho, 24 de julho de 2024

Vai um ovo choco aí?

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Qual é o seu prato preferido? A resposta pode variar de pessoa para pessoa mas uma coisa é certa: essa lembrança quase sempre está ligada às nossas memórias afetivas. Muita gente, quando responde, se lembra de um prato sofisticado que, na verdade, nem faz parte do dia a dia. Poucos se referem àqueles triviais, que comemos muitas vezes e, por isso mesmo, se tornam quase que banais e são relegados a um segundo plano. Pode ser uma macarronada, uma canjiquinha ou um pão com carne moída. Esses pratos só falam alto em nossa memória e em nossos corações quando se afastam da nossa rotina. Experimente ficar um tempo sem comer e você vai compreender o que estou falando. Acontece muito com quem vai morar em países distantes, com culturas diferentes, e ficam tempos sem comer, por exemplo, um feijãozinho com caldo grosso e bem temperado. Outro dia falei aqui sobre a experiência de ter escalado o Pico da Neblina. Pois então, naquela ocasião, depois de 7 dias comendo só barras de cereais e a comida em saquinho do exército, minha maior vontade era comer um pão com mortadela, feito com um pão crocante e fresquinho, acompanhado de um guaraná caçulinha geladinho. Cheguei a sonhar com isso! E foi a primeira coisa que comi quando voltamos para a civilização. É muito interessante esse negócio de gosto para comida, viu. Outro dia mesmo me peguei pensando na fome que deveria ter o primeiro ser humano que comeu um caranguejo. Desses que crescem no mangue, enterrados na lama. Rapaz, o cara devia estar fissurado de fome! Porque só no desespero para comer um bicho tão desajeitado de feio. Claro que depois que o primeiro comeu e descobriu que as patinhas guardam uma carne deliciosa, aí ficou fácil pros outros. Mas o primeiro a provar, o pioneiro, o destemido desbravador das patas de caranguejos, ah, esse tem meu respeito. Não é fácil, não. E digo por experiência própria. Já passei uns apertos por aí, experimentando e comendo coisas que passam longe de um cardápio normal. Tudo em nome da boa reportagem. Por exemplo, se alguém te oferecesse uma tartaruga assada no próprio casco, você comeria? E um macaco, moqueado com pêlo e tudo? Ou um ovo choco cozido? Dureza, né? Mas as vezes acontece de você ser convidado a repartir um prato desses. E aí, fazer o quê, meu irmão? Correr pra onde? Em Barcelos, no Amazonas, eu não tive pra onde correr. Barcelos fica na margem direita do Rio Negro e eu estava lá para mostrar como é feita a pesca artesanal dos peixinhos ornamentais de água doce, esses de aquário, como o neon e o cardinal. Depois de acompanhar durante toda manhã o trabalho de um pescador ribeirinho, ele nos convidou para almoçar na casa de palafita onde ele vivia com a mulher e muitos filhos pequenos, ao lado do rio. Chegando lá a mulher dele foi até um buraco cavado no meio do quintal, com um metro de profundidade por um de largura, onde tinha dentro pelo menos uns oito tracajás. Tracajá é uma espécie de tartaruga com casco escuro que habita os rios amazônicos. Pois, então, a mulher pegou um tracajá, o colocou numa mesinha, virou o casco para baixo, puxou a cabecinha dele de dentro do casco e passou a faca no pescoço. Feito isso, abriu a barriga do bichinho e tirou lá de dentro uns 20 ovos, pouco maiores que ovos de codorna, e os separou para serem cozidos mais tarde. Depois, colocou o tracajá com o casco virado para baixo numa espécie de churrasqueira de barro, que lembrava um cupim oco e com uma pequena abertura no topo, e acendeu o fogo. Depois de algum tempo, convidou todos para se servirem. Os moleques não se fizeram de rogados e avançaram no tracajá, cada um pegando uma lasca dentro do casco. Me lembro que o cinegrafista não quis comer, recusou. Eu comi, sabe porquê? Porque aquela família estava nos oferecendo o que tinham de melhor, de mais precioso para comer. Seria uma desfeita recusar. Depois descobri que pratos como aquele, só que com tracajás de criatórios, são servidos nos melhores restaurantes de Manaus a preços exorbitantes. E fazem parte da cultura gastronômica dos amazonenses. Assim como os bichos ‘mateiros’ fazem parte da gastronomia dos indígenas. Descobri isso comendo carne de anta no acampamento dos índios que viviam na reserva do Mato Grosso, onde caiu o avião da Gol, em 2006. Mas já tinha sido apresentado a esses costumes alguns anos antes, quando passei alguns dias numa aldeia às margens do rio Teles Pires e vi os índios preparando macacos, com pelo e tudo, numa churrasqueira improvisada com galhos verdes. Obvio que desta vez não comi. Mas comi turú na Ilha do Marajó. Sabe o que é turú? Aquelas larvas grandes que se parecem com minhocas brancas e crescem em paus podres nos mangues e alagados. Juro que experimentei isso. E juto também que logo depois bebi uma boa dose de cachaça pra ver se apagava ou esquecia o sabor. Mas nada foi pior que ser apresentado ao ballut, em Manila, nas Filipinas. Foi casual. Estava caminhando com o cinegrafista no centro da cidade, procurando uma pauta qualquer, quando vimos a aglomeração em torno de um homem que vendia ovos cozidos. Só que não eram ovos de galinha, como estamos acostumados a ver e a comer por aqui. Havia ali diferenças fundamentais. Primeiro, que eram ovos de pato. Segundo, porque eram ovos chocos. Mas bem chocos mesmo. Os clientes quebravam a casca do ovo cozido e aparecia lá o biquinho do patinho, algumas penas e tudo mais. Digamos que eram fetos bem formados de patos. Aí, jogavam sal, um molho de pimenta e crau, comiam com gosto. Claro que fiz a matéria, mostrei como funcionava aquela parada sinistra, peguei um dos ovos, abri, mostrei o patinho dentro, fiz um suspense mas… não comi! Não mesmo. Só que os filipinos adoram o ballut. Alguns compravam vários ovos e levavam para casa, para a família toda degustar. Então, é aquilo que eu disse antes: é cultural. Cada povo tem seu costume, sua cultura, suas tradições. A nossa feijoada, por exemplo, com pé de porco, rabo de porco, orelha de porco, é vista com muita estranheza por alguns estrangeiros. E nem por isso deixa de ser deliciosa para nós. É o tal negócio, cada um com seu costume. E olha, vou falar a verdade, depois de lembrar do macaco assado, do turú e do ballut já começo a entender melhor as motivações daquele primeiro ser humano a que me referi no começo deste texto. Aquele, que teve a coragem de comer um caranguejo.
Então… por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá.

 

(Raul Dias Filho) 

O autor é jornalista e repórter especial da Record TV
E-mail: [email protected]

 

 

 

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