Muzambinho, 23 de maio de 2024
Share on facebook
Facebook
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
IMPRIMIR
Share on facebook
Share on whatsapp
Share on email
Share on print

Ivo viu a uva. E Hildebrando viu a viúva. E que viúva: muito magra, esquálida; uma trabalhadora rural de mãos calejadas, ainda jovem, mãe de três filhos.

Ela estava naquela tarde cinzenta e fria na agência dos Correios da pequena cidade tendo nas mãos o cartão da Bolsa Família. – Esperava, com paciência, a sua vez de poder sacar o dinheiro do benefício.

Hildebrando Bueno, que tinha ido à mesma agência para despachar uma correspondência, pergunta à viúva por que recebe o benefício só para dois filhos. – “É que o mais velho tem doze anos e não está matriculado para poder estudar; trabalha na marmoraria o dia todo!” – – Diz com tristeza.

Hildebrando, então lembra (lá com os seus botões) da primeira lição do Método de Alfabetização do pedagogo Paulo Freire: “Não basta saber ler que Ivo viu a uva. – É preciso compreender quem trabalha para produzir a uva; e quem lucra com esse trabalho”. – E deduz: se o pai do menino, que trabalhou na mesma marmoraria e morreu por ingestão sistêmica de Sílica (matéria-prima para produzir o mármore) – o menino vai ter o mesmo destino do pai: morte por Silicose (endurecimento irreversível dos pulmões)..

“É a morte de que se morre, de velhice antes dos trinta, e de fome um pouco por dia”. – Diz  o poeta João Cabral de Melo Neto, autor de “Morte e Vida Severina”.

Ivo não viu a uva apenas com os olhos; viu também com a mente.

O mundo desigual da viúva pode ser lido com os olhos do opressor e pelos olhos do oprimido. A viúva é a oprimida com os seus três filhos, vítimas de pobreza infame.

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor e Escritor.

E-mail: [email protected]          Site: https//paulobotelhoadm.com.br

Notícias Recentes