Muzambinho, 27 de maio de 2024

Lampião, Neném Cabo Verde e Lázaro

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Virgulino nasceu em Serra Talhada, Pernambuco. Sebastião, em Cabo Verde, Minas Gerais. E Lázaro em Barra do Mendes, na Bahia. Os três vieram de famílias humildes. E fizeram história como bandoleiros. O primeiro, Virgulino, se tornou uma lenda como Lampião, o rei do cangaço. Liderou um grupo que, durante anos, percorreu o sertão nordestino invadindo fazendas e cidades e deixando atrás de si um rastro de sangue, feito através de saques, estupros e assassinatos a sangue frio. O segundo, Sebastião, ficou famoso com o apelido de Neném Cabo Verde, e ganhou manchetes de jornais na década de 30, quando matou um advogado a tiros em São Paulo. Mas antes, já tinha construído uma história de medo e mortes em Cabo Verde, onde nasceu e viveu durante boa parte da vida. O último, Lázaro, se tornou conhecido nacionalmente nas últimas semanas, quando dominou o noticiário fugindo da polícia e espalhando o terror no interior de Goiás. Então, estamos de acordo que pelos perfis apresentados, os três deixaram o nome na história como bandidos, certo? Errado, pelo menos em relação aos dois primeiros. Lampião é lembrado, no máximo, como um anti herói, o cara que comete crimes para, de alguma forma, praticar o bem. E ele nunca fez isso. O que houve foi uma glamourização da atividade criminosa. Na época de Lampião, década de 1930, existiam poucos jornais e as notícias corriam de boca em boca e, por isso também, ganhavam ares de verdade. Como todos sabemos que como ‘quem conta um conto, aumenta um ponto’, os feitos de Lampião foram aumentados exageradamente, para o bem ou para o mal, dependendo das intenções de quem espalhasse as notícias. Como a polícia mandava e desmandava, principalmente quando agia contra os mais humildes, e Lampião desafiava e humilhava os policiais, ele foi ganhando naturalmente a simpatia do povo e muitos passaram a descreve lo como um Robin Hood do sertão, que roubava dos ricos para dar aos pobres. Na verdade, Lampião nunca deu nada a ninguém. Pelo contrário, sempre tomou. E se teve alguém que o abrigou e protegeu, foram os grandes fazendeiros, os coronéis que davam as cartas no sertão e achavam melhor ter Lampião como aliado que como inimigo. E depois que se juntou a Maria Bonita ganhou ainda mais admiradores, personificando o casal errante que desafia as forças da lei em nome do amor. Para coroar o enredo e reforçar a lenda, ambos foram mortos pela polícia numa emboscada e tiveram as cabeças cortadas e exibidas por várias cidades, reforçando ainda mais a aura de mito que os cercavam. Enquanto Lampião se tornava lenda no Nordeste, na mesma época, no sul de Minas, Vicente de Magalhães Campos atemorizava a polícia e os moradores de Cabo Verde. Exibindo armas e esbanjando violência, ele fazia e desfazia da polícia e de qualquer um que ele cismasse, por qualquer motivo. As histórias dele atravessaram fronteiras e venceram o tempo. Eu mesmo ouvi dizer que, certa vez, ele estava sentado num banco em frente a um bar, na Beira da Assunção, rua mais poética de Cabo Verde, quando um policial passou montado a cavalo e Sebastião, que tinha o apelido de Neném, mirou com a garrucha dois canos e acertou as costas do policial, que ali caiu e ali ficou, mortinho da silva. Quando perguntaram porque fez aquilo, Neném teria respondido: ‘eu não gosto da polícia”. Simples assim. Mas antes disso ele já tinha fama de valentão, por entrar a cavalo dentro de bares, desafiar a polícia e bater com relhos em qualquer um, por qualquer motivo. Depois do assassinato do policial, Neném sumiu de Cabo Verde. Mas ganhou fama em outras fronteiras trabalhando como capanga de fazendeiros e comerciantes abonados e adotou o apelido de “Neném Cabo Verde”, que o acompanharia pela vida toda. Se tornou celebridade em 1930, quando o jornal ‘A Crítica’, de circulação nacional, deu em primeira página a notícia de que um tiroteio num palacete no centro de São Paulo havia deixado um advogado morto e dois homens feridos. Um desses feridos era justamente Neném Cabo Verde, que seria preso por homicídio e voltaria às manchetes dias depois, quando tentou fugir do hospital para se livrar da prisão. Assim como Lampião, tempos depois Neném também ganhou ares de herói, ao ser lembrado como um ‘homem que desafiava o sistema’. Mas normalmente, e isso é mérito da imprensa, a história é descrita tal qual ela se desenrolou. E não há nada que ateste algum ato heroico ou louvável nas ações de Lampião e de Neném Cabo Verde. Assim, como todos sabemos, não existe nada de épico na jornada de Lázaro Barbosa. Um criminoso comum, com alguns traços de psicopatia, que se transformou no assunto mais comentado do Brasil nas últimas semanas, até ser abatido por dezenas de balaços num tiroteio com a polícia. Lázaro, além de ser um assassino frio, era, acima de tudo, um bom produto de mídia. São raras as vezes em que a televisão tem diante de si, numa novela da vida real, um personagem tão fascinante. Sozinho, ele enfrentou e, de certa forma venceu, durante vinte dias, mais de duzentos homens. Homens treinados, equipados com miras de laser, drones, cães farejadores e uma vontade absurda de encontrar um alvo tão desafiador. Acho que desde os tempos de Lampião um criminoso não exigia tanto empenho da polícia nem impunha tanto medo na população. Por causa dele, e por medo dele, muitos abandonaram ou venderam as propriedades que tinham na região. Quem comprou? Os fazendeiros mais poderosos da região. Despois que Lázaro foi morto começaram a circular versões de que ele agia a mando de alguns fazendeiros e facilitou a compra de sítios, ao espalhar o medo e o terror entre os pequenos proprietários. Uma suspeita deprimente que merece ser investigada. Deprimente também foi a comemoração dos policiais pelo ‘abate’ de Lázaro. Sei lá, só faltou decapitar e exibir a cabeça dele em praça pública. Aliás, como aconteceu com Lampião e Maria Bonita, que em 1938 tiveram as cabeças cortadas e exibidas em várias cidades, num espetáculo dantesco e deprimente. Jogar um corpo crivado de balas dentro de uma viatura e exibir as fotos em redes sociais não enobrece o trabalho da polícia. Pelo contrário, o deprime e deprecia. E ainda aumenta a chance de transformar bandido em herói, em lenda, mito, exemplo. Não se pode dar essa chance a facínoras. Se são bandidos, devem ser lembrados como tal. Não se deve espetacularizar a vida deles. E muito menos a morte. Até porque nenhum bandido é espetacular. São apenas bandidos. Sejam eles de Serra Talhada, Cabo Verde ou Barra do Mendes.
Por hoje é isso. Até a próxima.

(Raul Dias Filho)

O autor é jornalista e repórter especial da Record TV
E-mail: [email protected]

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