Muzambinho, 23 de maio de 2024

O pingado e o forrobodó

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Nestes tempos de pandemia a palavra ‘saudade’ se tornou uma companheira constante e fiel. Saudade dos pais, dos irmãos, dos tios, dos amigos, da escola, do trabalho, da academia, das caminhadas, das viagens, dos bares, dos passeios, dos restaurantes, das compras, da feira, do culto, da missa, das festas, das pescarias, do truco, dos leilões, da algazarra, da aglomeração, enfim, cada um de nós sentiu saudades de algo ou alguém que estava próximo, que era querido, comum, corriqueiro, gostoso, prazenteiro. Nunca tivemos tantos motivos para sentir saudade. E por falar em saudade, você sabia que esta palavra só existe na língua portuguesa? Em nenhum outro idioma existe uma palavra que resuma, defina e esclareça com tanta clareza esse sentimento complexo e profundo, que muitas vezes nos faz sonhar, assim como muitas vezes nos faz sofrer, e que se chama saudade. Em inglês a palavra mais próxima é ‘longing’, que não tem um sentido tão abrangente. Serve mais como sinônimo de desejo, nostalgia, ânsia. Em espanhol também não existe palavra que seja sinônimo de saudade. Em vez de ‘sinto saudade de você’, o espanhol diz “¡Te extraño mucho!” ou “Me haces falta!”. Ok, o significado é o mesmo mas parece que em ‘saudade’ existe já um carinho e afeto incorporados à palavra. Por isso que a língua portuguesa nos permite dizer coisas que, em outros idiomas, seriam ditas de maneira mais protocolar. Ou, no mínimo, menos apaixonadas. Sem falar que o nosso português, o brasileiro, ainda foi enriquecido ao longo dos séculos por palavras com raízes africanas e indígenas, que abrasileiramos e tornamos comuns no nosso dia a dia. Como o ‘pingado’, por exemplo. Uma palavra que é comum no dia a dia dos paulistanos mas que muitos brasileiros ainda desconhecem. Me lembro de uma crônica que li, muito tempo atrás, onde o autor contava como essa palavra, ‘pingado’, mexia com os sonhos dele. No conto, ele explica que, ainda menino, a caminho da escola, passava todos os dias em frente à uma padaria. E todos os dias ouvia o garçom gritar: ‘solta um pingado’! E que, sem saber o que era um pingado, imaginava coisas mirabolantes e às vezes até sonhava com isso. Nos sonhos dele, o pingado era um pouco líquido, um pouco sólido, um pouco doce, mas sempre macio e que se desmanchava na boca de tão gostoso. E que ele juntou moedinhas durante meses até que, um dia, com dinheiro suficiente no bolso, se sentou no balcão e, imponente, pediu ao garçom: eu quero um pingado. E de como os sonhos dele se desmancharam quando o garçom colocou no balcão um copo de leite e completou com um pouquinho de café. Um café com leite! O mesmo que ele bebia todas as manhãs em casa, antes de sair para a escola. Aquele era o ‘pingado’ que tanto havia mexido com a imaginação e com os sonhos dele. E que aquilo o havia marcado para sempre porque, a partir dali, sempre que sonhava com algo grande ou estipulava uma meta, também pensava: não será isso um pingado, algo menor do que eu imagino? Eu também tive um ‘pingado’ na vida. Quando criança, no São Bartolomeu, fiquei uma semana inteira ansioso, esperando pela quinta feira porque, segundo mamãe, era o dia em que o homem do forrobodó iria passar. Assim como o menino do ‘pingado’ contei os dias para chegar logo a quinta feira. E não me contive quando mamãe disse: o homem do forrobodó está vindo. Saí na rua, uma estrada de terra batida, e vi um homem vindo a pé, puxando uma mula bonita pelo cabresto. A mula carregava dois balaios grandes, um de cada lado, cobertos com um pano branco e grosso. Papai chegou com algumas notas na mão, cumprimentou o homem e pediu: eu quero cinco forrobodós. O homem ainda respondeu: ‘foram feitos hoje. Ainda estão quentinhos’. Eu não aguentava de ansiedade para descobrir o que era o raio do forrobodó e ele ali, naquele suspense que não acabava. Ele então descobriu um dos balaios, pegou papel de embrulho e tirou lá de dentro os forrobodós. Eram pequenas roscas redondas, doces, polvilhadas com açúcar. Deliciosas! Diferente do menino do pingado, o forrobodó não foi uma decepção para mim. Pena que aquela foi a última vez que o homem do forrobodó passou por lá com sua mula vistosa. Depois continuei comendo forrobodós em padarias, mas nenhum jamais teve o mesmo sabor daquele que comi pela primeira vez. Aliás, procurei a palavra forrobodó no dicionário e a definição que encontrei foi a de uma ‘festa dançante’ ou ‘festejo popular’. Nenhuma menção a rosca, pão doce ou bolo. Será que só nós chamávamos aquela rosca deliciosa por esse nome? Ou você também já experimentou essa delícia e sente saudade do bom e velho forrobodó?

Por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá.

(Raul Dias Filho)
O autor é jornalista e repórter especial da Record TV
E-mail: [email protected]

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